Não sei onde está, pergunta à tua mãe | Sensibilidade Feminina




 




Ser pai de duas meninas é como ser convidado para dançar numa sala onde o chão reage ao volume da minha voz.

Uma tem três anos, a outra poucos meses tem, mas ambas já sabem julgar-me com os olhos. E com as sobrancelhas — especialmente as sobrancelhas, que já aprenderam a levantar-se em tom de “desilusão silenciosa”.

Eu e o cão somos os últimos bastiões da testosterona cá em casa. Os últimos sobreviventes do cromossoma Y, neste pedaço de território que já só é nosso por cortesia. Ele já fez as pazes com a sua irrelevância e passa os dias com um ar resignado, de quem aceita ser enfeitado com laços, mantas e críticas passivo-agressivas em tom infantil. Eu, não. Eu ainda luto — com a arrogância ingénua de quem acredita que vai conseguir explicar lógica a uma criança que quer levar um pêssego para o banho. A minha ingenuidade é comovente.

Ambas possuem personalidades fortes. Fortes ao ponto de ocuparem a divisão inteira, ainda que ambas tenham menos de metro e meio. São como dois pequenos planetas com gravidade própria, e eu, um satélite meio tonto, a tentar não chocar contra emoções em órbita. Às vezes olho para elas e percebo que não tenho hipótese. Venciam-me até num braço de ferro, e, depois, ainda me davam palmadinhas no ombro, com ar magnânimo: “Não faz mal, papá, tentaste”. Um mimo desconcertante. Quase como um amor com arame farpado nas pontas.

E é aqui que entra o verdadeiro tema desta crónica: a sensibilidade feminina.

Não falo de fragilidade. Não falo de romantismos. Falo de uma força invisível, poderosa, absolutamente incontrolável, que transforma cada objeto, cada gesto, cada sílaba, numa oportunidade para um colapso emocional, ou uma epifania espiritual. Nunca se sabe. A sensibilidade feminina não é uma reação. É um radar. Um sistema nervoso externo, altamente afinado, que capta tudo — até aquilo que ainda não dissemos. Não é suavidade, nem delicadeza. É afinação emocional em estéreo.  Um   sexto     sentido treinado  para detetar microexpressões, falhas de tom e demoras de dois segundos na resposta às suas perguntas.  Sou constantemente observado, como um arguido em sala de interrogatório, e a margem de erro é, praticamente, zero. Um suspiro fora de contexto pode ser lido como desprezo. Um silêncio pode significar abandono. Uma escolha de palavras menos cuidada pode gerar uma tempestade de olhares em fúria — e nenhuma delas sabe conjugar verbos no passado, mas já dominam a arte de me fazer sentir culpado por não ter percebido um subentendido que nem sequer chegou a existir.

Existe beleza nesta desconcertante realidade. Um lado puro, cru, inteiro. A sensibilidade feminina exige presença. Não dá para estar por metade. Não dá para ouvir só com os ouvidos. É preciso estar com o corpo todo, com a atenção virada para o que não está a ser dito. Elas não querem só a minha presença física. Querem o meu afeto traduzido em paciência. Querem atenção sem pressa. Tempo sem relógio.

A sensibilidade feminina não quer conserto. Quer reconhecimento. Não quer lógica. Quer linguagem emocional. Não quer um pai que diga “isso não tem importância”. Quer um pai que pergunte “como é que fizeste esse dói-dói?”.

É cansativo. É intenso. É avassalador. Mas é, acima de tudo, uma escola.

E se há coisa que estas pequenas mulheres me estão a ensinar, todos os dias, é que ser forte não é aguentar. É sentir tudo… e ainda assim continuar a amar com as duas mãos bem abertas.

Eu e o cão vamos sobrevivendo. Às vezes refugiados atrás de uma almofada, outras vezes escondidos no corredor a rir baixinho de coisas que já não controlamos. Mas sabemos ao que vimos. Estamos em minoria, sim, mas lúcidos — conscientes do privilégio e da responsabilidade que é navegar este universo de emoções refinadas.

Porque, verdade seja dita, essa tal sensibilidade que tanto nos desconcerta… também vive em nós. Talvez mais tímida, menos vistosa, mas está lá.




  • Diário de Odivelas - Redação

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