
As mulheres de Odivelas nem sempre foram meninas em Odivelas, algumas chegaram depois. Vieram do interior do país, nos grandes movimentos de êxodo rural dos anos 60 e 70. Ou vieram agora, de Lisboa, empurradas pela especulação imobiliária e pela explosão dos preços da habitação. Ou vieram e continuam a vir do Brasil e da África e da Ásia, em crescentes cadeias migratórias, enfrentando à chegada grupos hostis que as discriminam e isolam, e ainda dizem que o fazem em nome dos direitos da mulher. As mulheres do Odivelas não precisam de ninguém que fale por elas, mas sim de uma política municipal de promoção da igualdade e dos direitos humanos, ativa no combate ao racismo e à xenofobia, que apoie a integração das diferentes comunidades.
As mulheres de Odivelas despedem-se das suas meninas de madrugada, para apanhar o primeiro metro, são parte integrante dos 60% de população ativa que trabalha fora do concelho. Ou voltam tarde do seu segundo emprego, que o dinheiro é curto, e a sua remuneração base é 6,9 % inferior à dos homens, para além de serem a maioria entre a população desempregada. Ou ficam em casa o dia todo a cuidar das filhas, e dos filhos, e dos pais e mães e dos maridos e depois têm de ouvir dizer que ‘não trabalham’. As mulheres de Odivelas precisam de um emprego digno, de um salário justo, da divisão equitativa do trabalho reprodutivo não pago e de uma mobilidade eficiente em cidades construídas à escala humana.
As mulheres de Odivelas distribuem-se pelos mais de 60 mil agregados familiares de um concelho onde a precariedade habitacional é um problema estrutural grave, onde as habitações de luxo em prédios novos coexistem com moradas precárias de arquitetura instável. Um concelho com quase quatro mil pessoas a viver em condições habitacionais indignas, onde 16% dos agregados estão sobrelotados, contrastando com um quarto de agregados unipessoais, muitos deles habitados pela população idosa, maioritariamente feminina, a lutar sozinhas contra os desafios da saúde e os perigos do isolamento. As mulheres de Odivelas precisam de uma política municipal de habitação que se mobilize contra a especulação, que invista no aumento do parque habitacional público a custos controlados e que aposte na reabilitação urbana, nas políticas de saúde e em respostas de proximidade para um envelhecimento digno.
As mulheres de Odivelas aprendem desde meninas a atravessar a noite com o corpo em alerta e as chaves bem apertadas na mão, mas quando chegam a casa nem sempre suspiram de alívio, porque é entre quatro paredes que se comprova esta evidência estatística: se 27% da criminalidade declarada no concelho diz respeito a crimes contra as pessoas. 29% destes casos dizem respeito a violência doméstica, com uma média de 428 crimes por ano, 85% dos quais envolvendo vítimas do sexo feminino. As mulheres de Odivelas precisam com urgência de viver em segurança, de políticas de proximidade, redes comunitárias de entreajuda, educação para a não violência e estratégias de emergência para quando tudo o resto falha.
As mulheres de Odivelas querem ser livres para construir a sua própria felicidade, sem estarem confinadas a serem puras ou serem putas, binómio que os homens inventaram para elas. Como Feliciana de Milão e as outras freiras que se refugiaram no Mosteiro para poderem simplesmente ser sozinhas, num mundo que as obrigava (obriga?) a existir para os homens. Ou como a feminista republicana e sufragista Adelaide Cabette, e outras pioneiras do Instituto de Odivelas, que ensinou as suas alunas a conhecer o seu próprio corpo em aulas de anatomia e educação sexual.
As meninas e as mulheres de Odivelas só querem ser livres. E serão.
Inês Pereira
Socióloga e Professora Universitária








