Culturalmente | “Acreditamos em Ti” – Um sério problema, um filme forte.







Uma mãe que se divorciou por um motivo grave. abuso sexual do filho, menor de 12 anos, pelo pai, de que, devido ao trauma, tem pesadelos constantes e não retém as fezes, o que lhe criou um complexo de vergonha, inclusive na própria escola. E, sabe-se como as crianças podem ser cruéis para com a diferença, com os que não são “normais.” Daqui um isolamento e uma recusa, cada vez maior, de ir à escola, de sair à rua, de se sociabilizar e, até de ir ao tribunal onde a mãe e os dois filhos vão responder por não quererem mais sequer ver o pai depois de uma tutela partilhada que, por tal, rejeitaram.

A irmã mais velha, ciente do trauma do irmão, é também uma revoltada e a mãe, ao contrário do pai que voltou a casar-se, é uma mulher que não sabe que mais fazer quando se sente ameaçada de lhe retirarem a tutela dos filhos e os colocarem numa instituição neutra. Porque, por vezes, tem de agir, mais veementemente, obrigando-os, por exemplo, a ir a tribunal, para deporem, num interrogatório, que lhes é feito por outro juiz, mas isolados de sua mãe, naturalmente uma mulher ansiosa e descompensada.

O filme é soberbo, francês, duas realizadoras corajosas, e conta com planos fixos dos depoimentos das duas partes e dos respetivos advogados, planos fixos de câmara focada no menor detalhe de cada rosto, nos diversos tons de voz. É dar a primazia à palavra, usada de forma diferente por cada um, o pequeno teatro caseiro do acusado, a revolta dos adolescentes, que não se querem cruzar com o pai, agravada por, mais uma vez, terem de depor o que já fora declarado atrás, num espaço fechado, o tribunal de menores, onde toda a burocracia da justiça, os faz sentir-se acossados.

Só grandes atores, sobretudo a mãe, podem suportar, com brio, longos planos fixos sobre o seu rosto, a emoção a descambar no choro, na irritação, no receio de lhe ser retirada a tutela dos filhos.

Num registo, ao revés do cinema dos belgas Irmãos Dardenne em que as câmaras seguem sempre as personagens e seus movimentos. Aqui o que conta são a palavra e a verdade que cada rosto transmite.

“Acreditamos em ti”, título desta obra exemplar, advém do que a juíza dirá, no final, ao miúdo mais jovem após o seu depoimento, o que lhe permitirá amenizar, apenas um pouco, o seu trauma. Porque acreditaram nele.

No final, as realizadoras quiseram deixar um esclarecimento: Sabemos, há muito, que a maioria de abusos sexuais se dão em família. Em França, são cerca de 20% sobre filhas e 10% sobre filhos. Destes são muito poucos os/as que chegam a apresentar queixa e apenas uma percentagem de 2% são condenados.

Portanto um filme vigoroso, atual, a não perder.

Cinema City Alvalade

Avenida de Roma, 100

1700-352 Lisboa

Horários: 5ª 6ª Sab. Dom. 2ª 3ª 4ª: 13h25




  • Diário de Odivelas - Redação

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