
Hoje, esperavam-nos de novo, mais 300 quilómetros de estrada, em direção à remota aldeia de montanha, Lahic.
Queríamos começar o dia bem cedo, mas o pequeno-almoço no hotel atrasou-se. Talvez por sermos os únicos hóspedes, os horários resvalaram um bocadinho. Mas o atraso seria recuperável.

Mesmo em frente ao hotel, uma casa apresentava a foto de um soldado. Já vimos esta situação no país em variadíssimas ocasiões, e, desta vez, decidimos ir tentar perceber o que seriam. Vimos que era a foto de um soldado falecido em 2020. De repente, o portão da casa abre-se, e sai um senhor com um largo sorriso na cara. “Salam” dizemos nós. “Salam” diz o senhor. Num inglês de apenas poucas palavras, percebemos que era o filho dele, morto nos conflitos que têm existido com a Arménia, principalmente na região de Nagorno-Karabakh. Percebemos, mais tarde, que estas fotos têm um grande significado no país, uma vez que os soldados mortos em combate, são considerados mártires. Ter estas fotos nas casas, significa, nesta cultura, manter a pessoa presente na família, honrar o seu sacrifício, mostrar orgulho familiar e manter uma memória coletiva. Mais tarde, vimos grandes painéis de fotos de soldados, à entrada de pequenas localidades, desta feita, numa homenagem coletiva. Essencialmente a mensagem é a de que “esta pessoa morreu, mas continua a fazer parte da nossa família e da nossa história”.

Antes de nos fazermos à estrada, ainda restavam dois locais a visitar em Quba.
Começamos pela fábrica de tapetes, um produto pela qual a cidade ficou particularmente conhecida. Ganharam fama pela lã fina, a grande densidade de nós, as suas cores vivas e os desenhos geométricos muito precisos. A tecelagem continua a ser feita apenas por mulheres, utilizando técnicas que são passadas de mãe para filha, de avó para neta. Mas não se viu tecelãs novas, na nossa visita à fábrica. Não será certamente fácil manter esta tradição, num futuro pouco longínquo. O processo de fabrico é bastante trabalhoso e demorado. Para além de toda a logística necessária ao tratamento e tingimento da lã, há que montar os fios de estrutura no tear, e depois a tecelagem propriamente dita, em que a artesã vai fazendo milhares de pequenos nós, que vai compactando com regularidade. No final, o pelo é aparado para ficar uniforme. O nó, que vimos fazer, é bastante complicado, mas a rapidez com que é feito, por mãos experientes, é absolutamente fantástico. Cada nó, é um pequeno pedaço de fio, que é atado aos fios da estrutura. Um tapete de tamanho médio, 4 metros por 2, leva cerca de 6 meses a fabricar, com 8 horas de trabalho diárias! Esta arte tradicional da tecelagem de tapetes do Azerbaijão foi inscrita pela UNESCO em 2010 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. E é merecido!

A segunda visita foi num local de memória, que nos transtorna e nos confronta com a crueldade da História, mas que é essencial para preservar a memória e lembrar-nos de que nunca devemos permitir que tragédias como esta se repitam. Estamos a falar do Memorial do Genocídio de Quba, dedicado às vítimas dos massacres de 1918, perpetrado na cidade, bem como noutras regiões do país, e que aconteceram num contexto extremamente caótico de conflitos étnico-políticos no Cáucaso. Em abril/maio de 1918, forças armadas associadas aos bolcheviques e a grupos arménios, atacaram a região de Quba, matando milhares de civis. Durante obras no estádio de futebol local, em 2007, foi descoberta uma vala comum com quase 500 crânios. Esta macabra descoberta, deu origem a este memorial, que preserva a memória, de todos aqueles que foram vítimas destes conflitos, completamente absurdos. O monumento do memorial é particularmente impressionante, sendo que o museu é subterrâneo. O monumento é constituído por duas enormes estruturas de betão, pontiagudas, que parecem lâminas ou facas a sair do solo. A sua arquitetura foi concebida para transmitir dor, violência e luto. Representam também o que estava enterrado e escondido, mas que acabou por emergir. O interior do monumento, onde se encontra o museu, é apenas betão bruto, pesado, escuro e silencioso, sem nenhum tipo de ornamentação, para assim se transmitir o “silêncio do luto”. A visita é gratuita e feita sempre com um guia. No nosso caso foi feita em inglês, e com bastante informação e detalhe.

Antes de sairmos da cidade, tempo ainda para ver de novo, a Mesquita Juma, com uma lindíssima cúpula cor de cobre, que a luminosidade da manhã fazia realçar, de uma forma impressionante.

E estava na hora de fazer estrada, de “comer” quilómetros, em direção a Lahic. Muita montanha nos esperava, bem como algumas dezenas de radares de velocidade, que necessitavam de muita “atenção”.
Assim que saímos da cidade, as bermas ficaram repletas de vendedores, que tentam escoar as suas produções locais. Nesta região as maçãs são rainhas. Um pouco mais adiante, começam os tomates, e vamos ultrapassando na estrada velhos Ladas, completamente “atafulhados” de cargas gigantes de caixas de tomate! Estes carros, já com uma provecta idade, aguentam ainda estas “tareias”! Grandes máquinas! Verdadeiramente impressionante! Surgem também bancas que vendem enormes rodelas coloridas, em sacos de plástico. São “folhas” de fruta seca, muito tradicionais no país. A fruta é cozida e transformada numa polpa, que depois é espalhada numa camada muito fina e seca ao sol.

Muita atenção também na condução, com as centenas de vacas que vão utilizando a estrada para períodos de repouso ou para procurar erva mais fresca. Pastam livremente nas bermas, e por vezes decidem invadir as faixas de rodagem. Como já se habituaram às buzinas, continuam impávidas na sua vidinha. Muitas vezes somos obrigados a fazer verdadeiros slalons entre cabeças de gado e os carros que vêm em sentido contrário.
Quando chegamos às planícies junto ao Cáspio, o trono das bermas passa a ser dos melões e melancias. As bagageiras e a maior parte dos bancos dos velhos carros servem de armazém, e o lugar do condutor, o único espaço vazio, serve de escritório.
E chegou a hora de virar à direita, em direção às montanhas. A paisagem muda rapidamente de tons verdes, para amarelos e dourados, e entramos numa região onde se produz essencialmente cereais. Entretanto, já vínhamos a tratar, por whatsapp, do jantar com o anfitrião do nosso alojamento, porque na aldeia não seria fácil encontrar um restaurante. O anfitrião bem que nos tentou “vender” as dolma – carne e arroz enrolados em folhas de videira – pelos vistos um prato muito comum aqui, mas queríamos algo mais diferente. Infelizmente não seria possível fazer nenhum prato de borrego. Enviaram um menu, que fomos traduzindo e decidindo.

Parámos no Mausoléu de Diri Baba, um dos monumentos históricos mais impressionantes do Azerbaijão, de arquitetura medieval. Antes da visita propriamente dita, uma simpática cadelinha, deliciou-se com alguns snacks que costumamos levar em viagem, para alegrar o dia de cães e gatos que vamos encontrando. Voltando ao Mausoléu, foi construído em 1402, é um importante local de peregrinação. O edifício de dois andares parece estar integrado na encosta rochosa, criando uma relação muito original entre arquitetura e natureza. Está ligado à tradição sufi e à Rota da Seda. Junto ao monumento várias grutas eram utilizadas para oração, meditação e estudo religioso. Hoje existem bastantes avisos de que podem esconder cobras. Por acaso não vi nenhuma, mas lagartões vi alguns, que à nossa presença, desaparecem rapidamente entre as rochas.

Junto ao Mausoléu, mesmo em frente, visitámos um antigo cemitério, que faz parte deste conjunto histórico, e que se pensa existir desde o século XV. É interessante observar as várias épocas de utilização, pelas diferenças nas lápides, que foram evoluindo ao longo dos anos.

Ainda nesta localidade, teríamos de visitar uma pequena, mas muito bonita mesquita, com uma cúpula dourada lindíssima, e que estava reluzente com a luz do dia. Não foi fácil descobrir a entrada, e as nossas “voltas” na estrada principal, deve ter despertado a atenção de um polícia, que rapidamente colocou o seu carro-patrulha atrás de nós e começou a falar pelo altifalante, certamente a solicitar que encostássemos. Mas dito em azeri, não era fácil de entender. Acabámos por parar ao pé da mesquita, não ligámos muito à situação, e a Ana saí do carro e diz-lhe em português: “Olá! Vamos visitar a mesquita.”. Ele acabou por nem sair do carro, deu meia-volta e seguiu viagem.

Continuámos a rota e uns quilómetros adiante, nova interação com a polícia. Hoje saímos na rifa! Num posto de controlo fomos mandámos parar. Quando nos abordaram, falámos em português, e ouvimos: “Tourist?”. Claro que sim. “ Go! Go!”. Fantástico! Vamos embora que ainda faltam percorrer muitos quilómetros. Finalmente, conseguimos fechar o menu para o jantar.

Nova paragem em Shamakhi para visitar a histórica mesquita da cidade. Existe desde o século VIII, e já sofreu vários “percalços” na sua longa história. Foi seriamente afetada ao longo dos anos por diversos terramotos, foi incendiada em 1918 pelos arménios, e só em 2010 foi finalmente reconstruída, com a configuração atual. No local, um zeloso “funcionário” da mesquita, obrigou-nos a ir ler a história da mesma, gravada numa pedra, e tive de ir, cumprindo as suas instruções, lavar-me na zona das abluções, para ele me deixar entrar. Mas rapidamente se percebeu, que ele queria era contar a história, muito orgulhoso do seu património. Um velhote simpático. A mesquita merece a visita. É linda no interior!

O sol ia baixando e ainda faltavam muitos quilómetros, pelo que não havia tempo a perder. E a escalada para a alta montanha começou. Só vos digo que a estrada é uma verdadeira maravilha paisagística. Atingimos 2.070 metros de altitude. O inverno deve ter sido bastante rigoroso, porque a estrada estava em péssimas condições. Durante muitos quilómetros, a velocidade média deve ter rondado os 20 quilómetros por hora. Buracos, depressões, abatimentos, obras, de tudo encontrámos, mas conseguimos chegar ao nosso ponto de descanso do dia, a aldeia de Lahic, uma verdadeira preciosidade. Mantem a sua arquitetura tradicional com casas de pedra e varandas em madeira, com ruas estreitas e pavimentadas com lajes do rio, que transformam a condução numa verdadeira “bimby” velocidade 9! É ainda terra de artesãos, que trabalham o ferro e o cobre.

Seguindo as indicações do GPS, chegámos a uma praça, onde supostamente era o nosso alojamento. Aqui, animados idosos bebiam chá e jogavam jogos de tabuleiro, e uma velha carrinha, vendia frutas e legumes, como um verdadeiro supermercado ambulante, onde todas as partes planas da viatura foram aproveitadas para estantes de venda. Mas de alojamento nada… a Ana foi dar uma volta e nada… até que um senhor nos pergunta o que procuramos e diz saber onde é, explicando o caminho a seguir. Nova tentativa, sem sucesso. Então o senhor decide levar a Ana até ao local correto. Finalmente sucesso! Na realidade ainda estávamos bem longe. Deixámos o carro no quintal da caaa da anfitriã, e fomos para o nosso alojamento, ali ao lado. Uma tradicional habitação, completamente remodelada, com vários quartos e com uma vista para as montanhas, absolutamente magnífica.

A nossa anfitriã perguntou para que horas queríamos o jantar, e onde queríamos jantar. Se ali, no alojamento, ou na casa dela, onde deixámos o carro. Optámos, claro está, por nos juntar à família.

Aproveitamos a hora e meia que ainda teríamos de luz do dia, para dar uma volta pela aldeia. Se ontem éramos os únicos hóspedes no hotel, hoje continuamos a ser, e somos ainda os únicos estrangeiros na aldeia. Cruzámo-nos com muitas pessoas, maioritariamente idosas, sempre muito simpáticas, e mesmo não falando a mesma língua, tivemos diálogos deliciosos! Até acabámos por ajudar um adolescente, que tentava juntar os bezerros, regressados do dia de pastagem na montanha, e que estavam teimosos para ir para casa. Ainda tivemos de ir visitar o seu espaço, que nos mostrou com muito orgulho, as criações que fazia, de galinhas, patos, perus e as suas vaquinhas, e ia dizendo, apontando para elas, “monney monney!”. Ainda escreveu no tradutor do telemóvel, que fala pouco inglês, porque a escola não tem professora. Pelos visto um problema que atinge muitos países e não só o nosso.

O sol foi “dormir” e estava na hora da nossa refeição. E afinal o que escolhemos? Não foram escolhas fáceis… optámos por culinária local e toda ela feita de ingredientes frescos, da horta da casa. Quanto aos nomes, já não é possível dizê-los. Comemos uma sopa caseira, que estava fabulosa, e uns ovos cozinhados num misto de mexidos e tortilha, com ervas aromáticas, que estava… nem vos digo! Tudo isto acompanhado de pão fresquinho, e de uma salada de tomate e pepino, que sabia mesmo a tomate e pepino, e, assim, de uma forma simples, tivemos um manjar de reis.

A nossa anfitriã, Rasha, também a cozinheira, explicou-nos que é engenheira hidrográfica, mas que desde que foi mãe, dedicou-se à maternidade. Tem duas filhas, que nos acompanharam ao jantar, mas pouco tiraram os olhos dos telemóveis. A mais velha via séries e a mais novita via filmes de animação. Completamente diferentes uma da outra! A mais velha simpática e a mais novita muito “trombuda”. A Rasha, por sua vez, é super simpática e muito comunicativa. O marido, com quem escolhemos o menu ao longo do dia, trabalha em Baku, onde vivem todos. Só no verão vão para a aldeia, onde ela explora o alojamento, aproveitando as férias escolares das filhas. De inverno é muito difícil comercializar os quartos, porque a água congela nos canos, e os hóspedes teriam condições menos boas. O marido vem nas férias e ao fim de semana. Também ele engenheiro na BP, uma das empresas que explora o petróleo no país. E aqui, não há refeição finalizada sem o tradicional chá, pedras de açúcar e doces. Desta vez tivemos direito a compota e rebuçados. A compota era caseira, de cereja, e apenas maravilhosa. Entretanto, juntam-se a nós, a mãe e a sogra da anfitriã, que vieram “fazer perguntas” e “ver o ambiente”. Não falando inglês, foi a Rasha, que serviu de intérprete, enquanto ia continuando a fazer conservas de legumes em largos frascos. Vê-se por todo o lado esta forma de conservação dos alimentos. Hoje as conservas eram de tomates e pequenos pepinos, tudo produção da horta da casa e com um aspeto delicioso.
Amanhã é dia de viagem para uma cidade histórica.







