
Tudo indica que sim. O mapa-mundo como o conhecemos poderá ser reconfigurado.
Sabemos como os mapas são fundamentais para moldar a nossa visão do mundo e o lugar que nele ocupamos.
Acontece que as Nações Unidas, depois de muito pressionada pelos países africanos, prepara-se para atualizar a representação geográfica do mundo.
O mapa-mundo a que nos habituámos desde os tempos de escola foi criada pelo geógrafo Gerardus Mercator em 1569 que, valorizou mais os ângulos e as formas dos continentes e menos as áreas, uma metodologia que tem enfrentado duras críticas pelo seu impacto visual e geopolítico.
Elaborado na época das grandes expansões marítima europeias, tinha como objetivo principal orientar os navegadores no mar.

Mas já antes de Mercator o interesse científico pela cartografia se fazia sentir, nomeadamente pelo cientista grego Claúdio Ptolomeu, que por volta do ano 150 d.C., com o seu texto “Geografia”, descreveu o mundo da época – desde as Ilhas Canárias, na Europa, até ao Sri Lanka, na Ásia – através de uma quadrícula básica de latitudes e longitudes, isto numa altura em que muitos ainda acreditavam que a Terra era plana e onde a astronomia e a astrologia andavam juntas na tentativa de decifrar a ordem dos céus.
Ora, há várias décadas que é reivindicada pelos países africanos uma correção à projeção de Mercator, porque, segundo eles, não representa a dimensão real dos continentes, pois aumenta progressivamente o tamanho das regiões à medida que nos aproximamos dos polos, enquanto diminui os que estão mais perto da linha do equador.
Dão mesmo como exemplo o facto de, por exemplo, a ilha da Gronelândia, território dinamarquês, ser sobredimensionada no mapa, quando na realidade é 14 vezes menor que o continente africano.
Mas tal sempre foi uma das dificuldades dos cartógrafos. Procurar transformar uma esfera ligeiramente achatada nos polos (a Terra) numa superfície plana, sem causar distorções ou deformações é extremamente difícil. Na cartografia, esse desafio traduz-se no dilema das projeções cartográficas (Cilíndrica, Cónica ou Plana).
Foi, pois, com esse propósito que o Togo, país da África Ocidental, e com o apoio de 54 Estados-membros da União Africana, levou o tema a debate em 2025, onde voltou a defender que estas distorções contribuíram para uma perceção errada e desequilibrada do planeta, tendo provocado, ao longo dos tempos, consequências políticas e culturais significativas nas regiões do Sul Global (América Latina, África, grande parte da Ásia e Oceânia) que vão muito para além da esfera da cartografia.
A informação que um mapa nos pode dar é sempre bastante limitada, mas o seu poder simbólico e a imensidão do seu impacto social, cultural e político, são enormes.
“Um mapa nunca é neutro, molda as perceções, influencia a compreensão dos lugares e dos povos e pode, por vezes desde os primeiros anos de escolaridade, perpetuar representações que não correspondem à realidade geográfica (…) Tem a ver com a justiça cognitiva, com o acesso a um conhecimento geográfico preciso, a dignidade dos povos, a memória histórica e a luta contra as representações que herdamos e que influenciam a nossa perceção (…) África apenas pede que a sua realidade, as suas aspirações e a sua contribuição para o sistema internacional sejam levadas devidamente em consideração. (O ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, na ONU)
Uma situação que levou a que na última Assembleia Geral, ocorrida em setembro, em Nova Iorque, as Nações Unidas aprovassem uma resolução (“Corrigir o Mapa”), com 164 votos a favor, um contra (EUA) e seis abstenções: Estónia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia, que “recomenda” a substituição do atual uso da projeção cartográfica de Mercator por outra mais precisa que represente de forma mais fiel e mais proporcional a dimensão real dos continentes e países.
O objetivo é substituir “gradualmente” a tradicional projeção de Mercator (sem alterar fronteiras) pela projeção Equal Earth, criada em 2018, por uma equipa internacional de cartógrafos e considerada mais verdadeira no que diz respeito às dimensões dos continentes e países.
Se os mapas de Mercator ao preservar os ângulos foram e são uma mais-valia para a navegação marítima, já os mapas Equal Earth vão permitir ter uma representação mais precisa das áreas terrestres dos continentes, nomeadamente de África.
África, América Latina e Sul da Ásia serão provavelmente as grandes diferenças que iremos notar futuramente, pois irão surgir consideravelmente maiores. Já países como França, Estados Unidos e Rússia terão o seu tamanho reduzido no mapa.
Como sabemos, atualmente os mapas são desenhados com o auxílio de satélites e de recursos tecnológicos sofisticados. As ferramentas cartográficas mais usadas na Internet são o conhecido Google Maps que usa uma Projeção de Mercator adaptada e o Google Earth que combina imagens de satélite de alta resolução, fotografias aéreas e dados topográficos para criar um globo virtual.
Passámos assim, de um mapa plano e retangular (Mercator), para um modelo digital tridimensional do globo terrestre .

Concluindo:
Nenhum mapa conseguirá representar a Terra tal como ela é.
O que visualizamos num mapa-mundo dificilmente pode ser uma representação exata do planeta porque a Terra não é plana, pelo que, será sempre de extrema dificuldade passar de uma superfície curva para uma superfície plana, sem criar algum tipo de distorção.
A escolha da projeção dependerá sempre, por isso, daquilo que se pretende mostrar.
Nenhum mapa consegue representar perfeitamente ao mesmo tempo, o tamanho, a forma, as distâncias e os ângulos da Terra.
No caso presente, a concretizar-se esta Resolução/recomendação da ONU, que, recorde-se, não é juridicamente vinculativa (ao contrário das decisões do Conselho de Segurança), ditará sempre, segundo a União Africana, um passo histórico para uma representação cartográfica global “precisa e equitativa”.
Cabe aos Estados-membros e às várias organizações internacionais tomarem a sua decisão.
“Se a geografia é prosa, os mapas são iconografia”
(Lennart Meri, escritor e ex-presidente da Estónia, pós-soviética)

Carlos Jesus
Licenciado em Sociologia.
Mestre em Ecologia Humana








