Diário de Bordo –  Arábia Saudita 2.0 – dia 1







Regresso a uma zona do globo que nos atrai bastante. Gostámos tanto de conhecer a Arábia Saudita em 2023/2024, que voltámos em 2024/2025, acrescentando desta vez mais três países vizinhos, numa viagem que vamos chamar de Arábia Saudita 2.0!

O objetivo desta viagem será o de conhecer a região Este do país, junto ao Golfo Pérsico, visitando também o Kuwait, Qatar e Bahrein. Voámos para Riade, num voo sem atrasos. Com o prévio E-Visa, as formalidades de entrada do país são muito rápidas. O E-Visa este ano está com um valor inferior, mas continua acima de 100 €, sendo que inclui um seguro de doença. Sem isto é impossível entrar no país.

O primeiro stress foi com as malas, e a Ana já estava a ficar muito preocupada. Como fizemos uma escala muito longa em Istambul, as nossas malas ficaram decididamente no fundo de um contentor, que, por azar, foi o último a ser despejado. Tenho quase a certeza de que a minha mala foi a última a sair, sendo que a da Ana, saiu umas 3 malas antes. Ultrapassada esta situação, a habitual e necessária compra do SIM card local, para acesso a dados e GPS. Levantamento do carro alugado, e a estrada esperava-nos.

Assim que vimos uma bomba de gasolina com café, parámos para tomar o pequeno-almoço, na esperança de haver sandes de falafel com ovo cozido, salada e batata frita. E não é que havia mesmo! Que saudades deste pitéu! Acreditem ou não, é o pequeno-almoço dos deuses. O chá quente, já com açúcar, e com o frio que a manhã trouxe, harmonizou na perfeição tudo isto. Não poderíamos começar melhor esta viagem!

Duzentos quilómetros separavam-nos do primeiro objetivo do dia, a vila histórica de Ushaiqer. Pelo caminho fomos descobrindo mais alguns pequenos locais, tradicionais ou históricos, que estão em fase de recuperação, como está a acontecer por todo o país. A aposta no turismo é muito forte, e por todo o lado se vêm obras de recuperação e restauro. O forte de Raghbah é exemplo dessa recuperação. Infelizmente estava encerrado. Nas paragens que vamos fazendo, os gatos acabam por nos fazer passar mais tempo nos locais.

A paisagem, sempre muito monótona, plana e árida, ia sendo alterada por cáfilas de camelos, que pastavam vagarosamente, com as suas mantas nas costas, provavelmente para os proteger do frio do inverno saudita. Acampamentos de pastores nómadas, salpicam também a paisagem de areia. No regresso a Riade, amanhã, vamos tentar parar num deles.

Por curiosidade, a palavra portuguesa cáfila, tem origem na palavra árabe Qafila, que significa caravana.

Por fim, chegamos a Ushaiqer, pequena vila, situada na região de Najd, no centro do país. Tem uma arquitetura tradicional muito bem preservada e restaurada, com casas de barro e adobe. É protegida por muralhas e torreões. Durante muitos séculos foi um importante oásis, para descanso das caravanas e peregrinos, que atravessavam o deserto em direção a Meca e Medina. As suas ruas são estreitas e sinuosas, de forma a criarem sombras, para proteção do forte sol. O seu nome vem da palavra árabe “ashgar”, que significa avermelhado, a cor das montanhas e da areia em seu redor. Uma visita obrigatória, numa vila que é um verdadeiro museu aberto.

Voltámos à estrada para seguir até Shaqra, uma outra vila histórica, muito bonita, onde passaríamos esta noite. Check-in no alojamento “Casa Histórica Al-Sulaimi” alojamento, uma pequena guest-house. O funcionário, originário do Sri Lanka, muito simpático, fez as honras da casa. O alojamento tem sempre disponível para os hóspedes, chá e tâmaras. A sala de estar, num estilo tradicional, daquelas para sentar no chão, seria um local para explorar e aproveitar mais tarde, porque a hora de almoço, há muito que já passou.

Numa rápida volta de carro pela cidade, não se vislumbravam restaurantes abertos. Recorrendo a uma pesquisa na net, surgiu perto a indicação de um restaurante paquistanês, e fomos tentar a nossa sorte. Entrámos, e somos logo recebidos com largos sorrisos por dois funcionários atrás do balcão. Havia uma vitrine de doces enorme, mas de comida… nada! Tentámos comunicar em inglês, mas sem sucesso.  Ao fundo do espaço, uma pequena janela mostrava pessoas trabalhando. Só podia ser a cozinha. Meti a cabeça e fizeram-me sinal para entrar, indicando a porta. Milagre! Umas caixas metálicas, com diferentes caris, que soltavam aromas deliciosos quando se abriam, iam salvar o dia. A escolha, para não complicar, foi arroz com frango. Num canto da cozinha, um funcionário fazia maravilhosos pães achatados que exalavam um cheiro delicioso, de pão acabadinho de fazer. Vem a comida, numa dose gigante, e duas garrafas de água. Pedi pão, em língua gestual, em inglês, já em desespero em português, mas nada… da primeira vez vieram pickles, da segunda limão, até que me levantei, fui de novo à cozinha e apontei lá para o canto. Fez-se luz nas caras deles. “Chapati!” disseram todos em uníssono, com um sorriso rasgado. Só vos digo que era perfeitamente delicioso. Mas ainda não ficámos por aqui. Talheres… por aqui não se utiliza, ou é muito raro. Lá desencantaram umas colheres de plástico, sendo que a Ana, com duas delas, conseguiu ter “garfo e faca”. Muito se riram os funcionários, quer dos talheres quer da voz da Ana a desfalecer, a tentar explicar-me que tinha comido uma das malaguetas, que felizmente, para mim, temperavam o prato. Para mim, gosto de seguir os costumes locais, e as mãos serviram o propósito de me deliciar com uma refeição espetacular. No final, pedimos a conta e não acontecia nada. Pedimos outra vez e nada. Entretanto surge um rapaz que nos pergunta, num inglês muito rudimentar, de onde erámos. “De Portugal”, dissemos. Pergunta também se trabalhamos no país ou se somos turistas. Pediu também muitas desculpas pela comida ser picante, mas no Paquistão é assim (e ainda bem…). Explicámos que em Portugal agora há muitos conterrâneos dele, com restaurantes, e a comida também é picante. O rapaz cada vez sorria mais. Cristiano Ronaldo veio à conversa, como seria de esperar, e voltámos a pedir a conta. Será desta? Não é… chegam à mesa, duas taças com dois doces diferentes. Um de abóbora branca e outro de cenoura. Não eram maus, mas tinham uma grande quantidade de açúcar. A partir da terceira colher já custava a comer, de tão doce que era. Não conseguimos despachar as doses, e pedimos a conta. Até um outro cliente intercedeu por nós, numa língua que desconhecemos. Até que regressa de novo o rapaz que falava algo de inglês, a informar que eramos convidados deles, e que não iam aceitar que pagássemos. Pessoas simples e de uma simpatia extrema, que nos toca profundamente, e que nos faz regressar muitas vezes a determinados destinos e a não deixar de explorar o mundo que nos rodeia e onde somos surpreendidos. Deixámos a promessa de voltar hoje ao jantar, mas a pagar, sublinhámos bem.

Depois de uma refeição destas, o melhor seria uma bela caminhada, o que fizemos na visita ao bairro antigo, mesmo junto ao nosso alojamento, o Ushaiger Heritage Village, que está restaurado numa grande parte da sua extensão. Casas de barro impecavelmente recuperadas. Imperdível esta labiríntica visita. Fomos descobrir os dois “souks” da cidade, mas foram dececionantes. Poucas lojas abertas, quase desertos de pessoas e tudo muito virado para écrans gigantes, onde passam jogos de futebol em sessões continuas. Talvez o tempo frio afaste as pessoas, muito habituadas a temperaturas muito quentes.

Fomos visitar o museu da cidade, que poderia estar muito melhor. Localizado num dos “souks”, é apenas um ajuntamento de objetos antigos, dispostas sem muito nexo. Descobrimos um antigo palácio, restaurado, e com visitas abertas ao público numa pequena parte do complexo. Não tinha muita informação disponível, quer sobre o local, quer sobre as peças expostas. O turismo está no seu princípio e ainda há um longo caminho a percorrer. Os próprios funcionários não falavam inglês. Neste aspeto, a região do Mar Vermelho, onde estivemos o ano passado, está nitidamente mais avançado, num turismo muito mais organizado e eficiente.

Pela cidade já se vêm cartazes a dar as boas-vindas ao Mundial de Futebol 2034, que será na Arábia Saudita. No regresso ao hotel encontrámos uma loja tipo “El Corte Inglês” da cidade. Vende de tudo. Mobília, louça, tachos, roupa, detergentes, serviço de encadernação, entre muitas outras coisas. Um dos funcionários quis tirar uma foto connosco, quando lhe dissemos sermos de Portugal. Alguém me anda a convencer a comprar um thobe, para o jantar temático, já em casa, que costuma acontecer quando regressamos.

Amanhã é o regresso a Riade, num tranquilo dia de viagem pelo deserto saudita, sempre despertos para o que a estrada nos proporcionar.

Infelizmente não vamos cumprir a nossa promessa de jantar, porque, depois da hora tardia de almoço, e da quantidade gigante de comida que nos puseram à frente, hoje nem conseguimos jantar. Vamos relaxar na sala de estar do alojamento, numa forma muito tradicional, no chão, a comer tâmaras maduras e a beber um chá bem quentinho.

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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