
Depois de uma bela noite de descanso, bem merecida, porque as duas anteriores foram bem curtas em horas de sono, o dia avizinhava-se calmo, numa tranquila viagem de regresso a Riade e sempre de olho nas dezenas de radares de velocidade instalados na estrada. Despedidas do nosso anfitrião, cingalês, que muito agradado ficou de já termos visitado o seu país, Sri Lanka. Não poderíamos partir sem comermos mais umas deliciosas tâmaras, sempre disponíveis no hotel. Pequeno-almoço simples, num tasco local, escolhido sem grande ciência. Mais uma vez, dificuldades no inglês, mas rapidamente entenderam o que pretendíamos. Aqueles pães locais, apenas com ovo e um molho, com o indispensável chá açucarado, bem quente, que a manhã ainda está fria. Simples, mas delicioso!
Não podíamos abandonar Shaqra, sem regressar à loja do “El Corte Inglês” local, para ver os thobes. A escolha recaiu sobre um branco, o mais tradicional, e o que fica melhor com o meu vermelho lenço jordano. Já tenho fatiota para o jantar temático, que me vão cravar. Aproveito para lembrar os comensais, que na Arábia Saudita se come com a mão! E estando na Arábia, nada como ser árabe, e a nova indumentária vai já vestida!

Primeira paragem nas dunas vermelhas do deserto, onde um pastor controlava os seus camelos, ao volante da sua Toyota de caixa aberta. Um pastor moderno! O vermelho da areia é absolutamente lindo, e só tínhamos visto algo semelhante a esta cor, no deserto de Wadi Rum na Jordânia. Pena a areia estar muito mole, e não termos conseguido caminhar nas dunas sem a erva camelo, que eram muito mais fotogénicas.

Segunda paragem numa mesquita com uma arquitetura muito interessante, e que deve ser bastante antiga, pelo aspeto do minarete. Os crentes vão rezar e deixam os carros e os camiões a trabalhar no parque, para manterem o fresco do ar condicionado no interior do veículo, e, impressionantemente, ninguém mexe em nada.

Mais uma paragem, desta feita para almoço. Nenhuma informação escrita em inglês, e mais uma vez ninguém falava a língua de Sua Majestade. Por sorte, o tradutor de fotografias do Google, consegue traduzir minimamente o que existe. Os empregados ficam sempre muito espantados, porque ainda não devem saber dessa funcionalidade. A nós facilita-nos bastante a vida. Depois de um delicioso falafel, mais quilómetros de estrada, até a um local de acampamento de pastores e comerciantes de cabras, para uma possível reportagem fotográfica.

Saímos do carro e fomos tranquilamente vagueando pelo espaço, sem encontrar vivalma. Subitamente, dentro de uma tosca cabana, três pessoas sorriem para nós e convidam-nos a entrar. Com muitos gestos à mistura, pedimos autorização para os fotografar assim como o espaço, e percebemos que não haveria problema. Andámos livremente pelo acampamento, onde não vimos mais ninguém, para além de muitíssimas cabras de variadas espécies. Regressámos à cabana, onde fomos convidados a partilhar a refeição com eles. Macarrão cozido, apenas polvilhado de açúcar, era o almoço, servido numa larga taça metálica, colocada no chão. Tentámos explicar que já tínhamos comido e insistiram para tomarmos um chá, que aceitámos com agrado. Com algumas palavras em inglês, soubemos que são sudaneses. Portugal significa Ronaldo e o “Siiiiiiiii” usual.

O casebre servia de cozinha, despensa, espaço de refeição e talvez de dormida. Os sapatos ficam à entrada, e o melhor lugar é-nos oferecido, apesar de ser apenas uma grande almofada com encosto. Iam insistindo para comermos massa. Mas não fui capaz de comer da pouca comida que eles tinham para os três, apesar de ter sido um prazer partilhar uma refeição com pessoas tão puras. O chá ficou pronto e foi acompanhado por um pedaço de casca de canela, que cheirava divinalmente bem. Pelos vistos, no Sudão, mastiga-se casca de canela com o chá. Fizeram muitas perguntas, mas tivemos muita dificuldade na comunicação. Foi uma parte da tarde bem passada, junto de três pessoas fantásticas, que praticamente sem nada, partilharam connosco tudo o que tinham no momento. Tínhamos de retribuir esta hospitalidade, esta amabilidade e gentileza e, depois das despedidas, fomos a um supermercado uns quilómetros adiante, e comprámos açúcar, massas, chá, bolachas, e regressámos ao acampamento para lhes entregar. O sorriso deles foi algo que vamos recordar para sempre. E agora foi mesmo um adeus, certamente para sempre, com pena nossa. Nas viagens conhecem-se pessoas muito boas, mas que, infelizmente, perdemos contacto para sempre, mas que ficam sempre na nossa memória e coração.

Segue-se Riade, a cidade gigante. Deixámos a pacatez do interior do deserto, das estradas sem carros, para a confusão de trânsito da grande metrópole. O GPS conduziu-nos com precisão ao nosso alojamento, numa zona bem mais tranquila da cidade, Ar Rawdah. Neste hotel, pela primeira vez, vimos perfumes à disposição dos hóspedes! Há perfumes por todo o lado, desde a receção a todos os corredores! Quem quiser, borrifa-se! Eu por mim preferia as tâmaras do alojamento do dia anterior. O quarto era gigante, com sala anexa. Um luxo! Mas a um preço muito bom. Pouco mais de 30 €.
Saída a pé para conhecer os arredores do hotel, e deixarmos um restaurante debaixo de olho para o jantar. Viajar de máquina fotográfica ao pescoço, uma coisa rara nos dias de hoje, com a proliferação de smartphones, desperta cada vez mais a atenção de quem se cruza connosco. Logo nos primeiros “bonecos” um Saudi vem interagir comigo, porque não percebia o que eu estava a fotografar. Luz de crepúsculo, a apanhar ângulos de luzes de sinalização de um guindaste de construção, de modo a ficarem com o efeito estrela. O Saudi ficou encantado com esta técnica. Infelizmente era adepto do Messi.
Parámos num supermercado, para comprar bolachas e chocolates, que costumamos ter sempre para emergências, e um dos clientes, um jovenzinho com doze anos talvez, com a sua pequena irmã, pede para lhe tirar uma foto com a máquina. Mais uma encomenda que terei de enviar por WhatsApp.

Já quase no final do passeio, ao passarmos por um restaurante, um dos empregados grita “PHOTO!”. Entrámos e fiz uma sessão com ele a cozinhar, a empratar, entre outras situações. Um outro quis também. Mais uma sessão. Mais dois clientes via WhatsApp. Por sinal sudaneses também, e muito simpáticos, sempre com um sorriso rasgado e sincero.
Chamamento para a oração, e restaurantes todos encerrados, pelo que tivemos de esperar pela reabertura para ir provar um frango com arroz biryani, que sinalizámos no nosso passeio. Mereceu a pena a espera!
Antes de dormir, ainda fomos atestar o carro, para a devolução de amanhã, dia de voar para Doha, Qatar.







