Diário de Bordo | Chipre dia – 1







Chipre – dia 1

Grande parte da noite a voar, num voo com partida às 23H50 de Lisboa e chegada a Atenas às 05H45. Duas horas depois, novo voo para Larnaca, Chipre, o nosso destino final.

Após rápidas formalidades à chegada, e da habitual aquisição do Sim Card, recolha da viatura alugada, e começamos assim mais uma road trip, a nossa forma de viajar preferida, num país que certamente nos irá surpreender. Iríamos começar esta viagem por Nicósia.

Pela primeira vez conduzi com volante à direita e no lado esquerdo da estrada. Conduzir com o volante à direita já tinha sido uma realidade para mim, quando servi no Exército português, como instrutor de condução de viaturas pesadas. Chipre foi durante muitos anos administrado pelo Reino Unido, tendo sido inclusive uma colónia britânica, alcançando a sua independência apenas em 1960. Pelos custos que implicaria alterar todo o sentido de circulação, assim como alterar todas as viaturas, decidiram manter este sistema britânico. Mas na realidade, conduzir com o volante à direita, não é nenhum bicho de sete cabeças. Com um carro de caixa automática, que alugámos, ainda se torna bem mais fácil. Dez minutos de condução, e o sistema está interiorizado. Parece muito mais difícil, mas na realidade a adaptação é muito fácil ou pelo menos foi para mim, talvez pela minha aptidão natural de conduzir veículos motorizados. E assim seguimos até ao nosso primeiro destino, Nicósia.

Mas não foi pela condução à esquerda que visitámos este país, mas sim pela sua história passada e recente. Basta dizer que a capital, Nicósia, ainda está dividida entre dois “países”, sendo a última capital dividida da Europa! Mas a esta história, algo comprida, já lá iremos.

Alojamento no Hotel Castelli, Hotel Castelli, em Nicósia, muito perto da linha divisória de fronteira da cidade.

Para que percebam esta situação e de uma forma muito resumida, como se chegou a esta divisão de uma ilha?

Chipre tem uma das mais ricas histórias do Mediterrâneo, devido à sua posição estratégica entre a Europa, a Ásia e a África. Crê-se que os primeiros habitantes ali chegaram há 12.000 anos. Na Idade do Bronze teve um aumento brutal da sua importância e prosperidade, por possuir abundantes minas de cobre. Dizem que o nome latino, Cyprus, estará diretamente relacionado com esse metal, o cuprum (cobre). Com o colapso da civilização micénica, os gregos instalaram-se na ilha, e a cultura grega passou a ser a identidade dominante do território. E aqui começa a surgir uma das partes envolvidas na sua história mais recente, os gregos. Depois vieram os assírios, os egípcios, também Alexandre o Grande por aqui andou, e os romanos, que incluíram a ilha no seu império. Mais tarde passou para o Império Bizantino, e durante a Terceira Cruzada, Ricardo I de Inglaterra conquistou a ilha, tendo a ilha sido adquirida, posteriormente, e governada pela Casa de Lusignan nobres franceses, que aqui ficaram durante 300 anos. Inicialmente os Cavaleiros Templários adquiriram-na, mas desistiram do negócio. Com sucessivas crises, os franceses entregaram a ilha aos venezianos que ficaram cerca de 90 anos. Até que os otomanos chegaram, conquistaram e aqui reinaram por 300 anos. E aqui surge a outra parte da história mais recente da ilha, os turcos. Trezentos anos depois e por complexas questões de geopolítica, que ainda hoje são muito semelhantes, chegam os britânicos, que só saem em 1960, com a independência da República de Chipre.

Nessa época, a população dividia-se em 80% de cipriotas gregos e 18% de cipriotas turcos. Os restantes 2% eram pequenas comunidades arménias e maronitas. A convivência entre comunidades foi sempre muito pacífica, apesar das suas grandes diferenças religiosas e culturais. Contudo, desde o final da Segunda Guerra Mundial, um movimento interno defendia a união de Chipre com a Grécia, e um outro, completamente contrário, defendia a “taksim”, ou seja, a divisão da ilha, para criar um território independente para a comunidade muçulmana.

Com a independência, a nova Constituição do país procurou manter um equilíbrio entre as duas comunidades dominantes. O presidente seria um cipriota grego, o vice-presidente seria um cipriota turco, ambos com poder de veto. Parlamento e forças de segurança, também eram repartidos pelas duas comunidades. Nessa época criou-se o conceito de “potências garantidoras”, no caso o Reino Unido, a Grécia e a Turquia. Três anos volvidos sobre a independência, e os primeiros confrontos armados surgiram, entre milícias das duas comunidades. Uma força militar das Nações Unidas foi enviada para manter a paz, e criou-se a “linha verde”, apenas como divisão da capital, Nicósia, e o verde vem da cor do lápis com que foi desenhada num mapa. Simples. Em julho de 1974, a junta militar que governava a Grécia, apoiou um golpe de estado na ilha, levando a Turquia a lançar uma intervenção militar, com a base de “potência garantidora”. Deste conflito, que durou um mês, as forças turcas passaram a controlar 37% do território norte de Chipre. Esta ação militar provocou, para ambas as comunidades, milhares de mortos e milhares de deslocados. 160.000 cipriotas gregos foram expulsos do Norte e 45.000 cipriotas turcos foram expulsos do Sul, numa separação total entre as duas comunidades.

A linha verde, passou a ocupar toda a ilha, passando a ter uma extensão de 180 quilómetros. Em Nicósia, há partes apenas com 20 metros de largura, sendo que nas zonas mais rurais, a largura pode ter vários quilómetros. Todo o interior dessa zona tampão continua a ser patrulhado por forças das Nações Unidas.

Em 1974, tudo o que estava à mão serviu para fazer de barreira divisória. Em Nicósia, por exemplo, é comum ver-se barris a fazer essa separação.

No presente temos então no Sul, a República de Chipre, reconhecida pela comunidade internacional e no Norte, a República Turca do Norte, reconhecida apenas pela Turquia. Desde 2003 existem vários pontos de passagem entre as duas zonas, permitindo a circulação de pessoas, mas atuando como uma verdadeira fronteira entre dois países. A juntar a toda esta “confusão” ainda existem na ilha duas áreas militares soberanas, pertença do Reino Unido.

E o texto já vai longo, apesar de ter tentado resumir ao essencial, como se chegou à situação atual. Mas completamente necessário para se entender a conjuntura atual da ilha.

De regresso à nossa viagem, após o check-in no hotel, decidimos percorrer a cidade a pé, a melhor forma de se conhecer uma localidade. Do lado grego encontramos uma situação muito europeia, com várias lojas de marcas internacionais, modernos cafés e restaurantes. Decidimos “invadir” o Norte, e atravessámos a fronteira no famoso Ledra Street Checkpoint. A rua Ledra era a principal artéria comercial de Nicósia, que em 1963 foi fechada e completamente barricada com arame farpado, sacos de areia, bidons, tudo o que estivesse à mão. Só voltou a ser cruzada em 2008, com a negociação da ONU entre as partes. É uma passagem apenas pedonal, e tem formalidades de fronteira, tendo nós, como não residentes, de apresentar a passaporte. Muito fácil da parte grega, muito mais formal da parte turca. E em poucos minutos conseguimos atravessar a pé uma das divisões política mais conhecidas da Europa, cruzando a linha verde. A travessia é uma autêntica passagem por uma “cápsula do tempo”, com edifícios abandonados à pressa, e que ficaram na zona tampão.

E chegámos ao outro lado, à parte turca, que é… turca! Deixamos o euro e passamos para a lira. Passámos de lojas de marca para bazares. Passámos do McDonalds para kebabs! Os preços são muito mais agradáveis que do outro lado.

De repente vimos borek, e estava decidido o local para almoço.

Por toda a zona perto da linha verde, vários sinais indicam que é proibido fotografar. E na parte turca levam isto a sério. Apanhados numa câmara de segurança, das dezenas que existem, um casal de turistas espanhóis foi de imediato interpelado por um militar, saído sabe-se lá de onde, que exigiu ver as fotos da câmara.

Quer de um lado quer do outro, perto da zona tampão, os edifícios estão degradados, sendo isso mais notório desta parte. Fomos visitar um dos bairros históricos, o bairro Samanbahçe, um dos mais interessante de Nicósia. De origem de habitação social, começou a ser construído em 1908 pelos britânicos, para oferecer habitação digna a famílias de baixos rendimentos. Um bairro de casas com características muito especiais, criado para gerar um sentido de comunidade, com pequenas moradias térreas, caiadas de branco, com um pequeno quintal e todas viradas para pátios comuns. Ao contrário de outras zonas próximas da Linha Verde, o bairro continuou habitado e preservou grande parte da sua identidade. Nos últimos anos, várias casas foram restauradas, mantendo o aspeto original. O bairro fica também dentro das muralhas venezianas, também elas cortadas pela zona tampão, ou em alguns casos fazendo mesmo parte da zona tampão, numa amalgama de situações pouco comuns para nós. Uma fortificação para proteger uma cidade, passou a ser uma fronteira dentro da própria cidade.

Fora do bairro, em muitos edifícios mais perto da zona tampão, continuam a ser visíveis os vestígios da guerra, com muitas paredes danificadas por buracos de balas, da guerra de 1974.

Regressámos à parte grega, atravessando o mesmo check point. A chuva deu um ar da sua graça, durante a tarde, mas felizmente não durou muito tempo. Junto aos militares cipriotas gregos, a revista a sacos era muito apurada. Talvez procurassem tabaco, certamente muito mais barato do lado turco. Como os dados móveis continuavam a não funcionar, aproveitámos para passar numa loja da operadora, que de uma forma muito rápida, resolveu a questão. Faltava fazer uma chamada para determinado número, que iria ativar o SIM CARD. Fica a dica para quem visitar o país.

Do lado grego, fomos visitar a Praça Eleftheria ou a Praça da Liberdade, um dos lugares mais simbólicos da Nicósia moderna, porque fica exatamente no ponto de encontro entre a cidade contemporânea, as muralhas venezianas e a memória da divisão da ilha. Esta praça sofreu uma enorme transformação com o projeto da arquiteta iraquiano-britânica Zaha Hadid, numa obra de arquitetura moderna muito interessante. É também ponto de encontro de refugiados africanos, que atravessam o mediterrâneo em arriscadas travessias, e que aqui aportam. Uma triste realidade nesta ilha, que nos despertam para as desigualdades que o Mundo ainda tem, e que se teimam em não resolver.

Em agosto, a temperatura na ilha é bastante elevada, e com a chuva que caiu, a humidade aumentou bastante, criando um clima quase tropical. Fomos despejando garrafas de água com frequência. Decidimos regressar à parte norte, para um lanche de baklavas e chá, num local fresquinho, para matar saudades de Istanbul. Amanhã vamos para as montanhas.

  • Diário de Odivelas - Redação

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