Crónica do Rafu | Agora é que são elas







Em julho, em Sintra, houve um encontro de um movimento de mulheres conservadoras. O lançamento oficial será feito em novembro. Imagino que seja assim, provavelmente, para dar tempo de todas as participantes receberem a devida autorização do cabeça de família.

O anúncio de tal grupo suscita questões: quem é que vai ser o porta-voz? Algum marido? E qual será o movimento? Da cama para a cozinha, conforme ele mandar?

No encontro estiveram presentes três deputadas portuguesas e uma deputada brasileira. Afinal, se há algo em que uma pessoa pensa quando pensa numa mulher conservadora, é em alguém independente e com voz num parlamento político.

Além disso, estiveram presentes, entre outras, uma jurista, uma advogada, duas consultoras na área das Relações Internacionais, duas influencers, uma psicanalista e uma evidente falta de gosto pelo feminismo que lhes permitiu ser isso tudo.

De acordo com a fundadora, Rebeca Batista, “o problema surge quando uma parte do feminismo (…) passa a interpretar a sociedade sobretudo através de uma lógica interseccional e de conflito entre grupos”. Tendo em conta que deste grupo faziam parte quatro deputadas de partidos de extrema-direita, nota-se, realmente, o quanto são contra conflitos entre grupos.

Entre elas encontram-se também várias pessoas que defendem as ações do governo de Israel em Gaza, o que só sublinha que conflitos não é cá com elas.

Nas notícias sobre o encontro, destacou-se a possível aproximação a igrejas evangélicas. Já a Aliança Evangélica Portuguesa demarcou-se do movimento, ou não fosse alguém pensar que uma religião baseada em princípios da família tradicional seria representada por um grupo de mulheres.

O conjunto de igrejas evangélicas diz-se apartidário, tal como o movimento de mulheres conservadoras; defende “a proteção da vida desde a conceção”, tal como o movimento de mulheres conservadoras; e defende que o casamento é entre um homem e uma mulher, tal como o movimento de mulheres conservadoras. Podia continuar a lista, mas encheria o texto com muitas meras coincidências.

O manifesto do movimento ainda está a ser redigido com submissões de ideias de várias pessoas. Promete ser um texto e tanto, tendo em conta que, se há algo de que entendem, é de submissões.

Um grupo de mulheres com formação superior, liberdade de expressão, liberdade de escolha, autonomia e relevância política acha que o feminismo não as representa. É como um peixe achar que o mar tem demasiada humidade.

Não há nada como ser contra aquilo que lhes garantiu o direito de se manifestarem. Às tantas, isso do feminismo é só para o que lhes dá jeito.

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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