Opinião – A “eclipsomania”







No dia 12 de agosto, como todos pudemos constatar, aconteceu um eclipse do sol, um fenómeno astronómico raro, bonito e digno de admiração! Até aqui tudo bem. Só que se viveu este fenómeno como uma espécie de febre coletiva, e começamos a falar do eclipse como se fosse um acontecimento capaz de redefinir a existência humana. Nos dias que se antecedem a este fenómeno, e ao belo do tuga, que deixa tudo para a última hora, instala-se o pânico porque já não há óculos, os hotéis em Bragança estão cheios, os avisos de perigo multiplicam-se, as previsões para a costa ocidental são de nevoeiro (isto sim um fenómeno quase diário, onde o sol se “eclipsa” muito cedo e por vezes “acorda” tarde)… AHHHHHH… horror! Muitas pessoas preparam-se, quase como que para uma catástrofe nuclear… calma… é só a lua a tapar o sol, algo que, convém recordar, já aconteceu muitas vezes. Não é milagre!

Ontem os telejornais ocuparam 1 hora a falar sobre isto, com vários pontos de reportagem, diga-se de passagem, muito “interessantes”. Uma jornalista no telhado, a fazer lembrar o famoso filme “gata em telhado de zinco quente”. Jornalistas no Jardim Zoológico de Lisboa, ou no ZOO, para ser mais “in”, para apreciar as alterações comportamentais dos animais, o que parece não ter acontecido, e até o tigre se afastou no momento certo da entrada em direto, para estragar o enquadramento.  Guitarristas a tocar melodias, em honra ao eclipse, mas não tocaram o “Here came the sun” dos Beatles com pena minha. Diretos de Burgos! Aqui o eclipse foi total! Como diziam umas espanholas que conheci há muitos, muitos anos em Espanha, “Burgos! Burgos! Burgos és cojonudo! Como Burgos no hay ninguno!”. E depois, os grandes diretos de Bragança, do Aeródromo, onde a roulotte das farturas deve ter “eclipsado” umas massas valentes ao bolso da malta, onde pudemos ouvir vários testemunhos. Um petiz acreditou que a lua deu uma trinca no sol (não se deve enganar assim as crianças). Muitas pessoas não conseguiram falar com a emoção…tão lindo! Outra pessoa nunca tinha visto escuro… Os jornalistas iam medindo o abaixamento da temperatura. Dizem que baixou 2 graus… trabalhem em Lisboa e vivam na região oeste e vão ver o que é a temperatura a baixar 8 ou 10 graus, sem eclipse! Ou melhor, com eclipse, porque no verão, a partir das 18H00, normalmente o sol vai-se…

Com tudo isto não pensem que eu não vi o eclipse. Vi. Mas com tranquilidade. Vi na bomba da BP do Estádio de Alvalade, enquanto abasteci de gás. O processo é moroso, é barato, mas tem de se estar sempre a carregar no botão, o que é uma maçada. Desta vez passou-se melhor, a olhar para o sol, de óculos certificados claro está, e vi que a “trinca” da lua ao sol ia aumentando a olhos vistos. Que lua comilona! Tudo isto acompanhado de muitos gritos de aviso de uma das funcionárias a outros funcionários, que, cá fora, iam fazendo pala com a mão e olhando para o sol a olho nu! Não costumam ver telejornais… esperemos que hoje consigam fazer bem os trocos. Acabei por ver o grande epílogo, não total já sei, no parque de estacionamento do Mercadona de Frielas, enquanto esperava que uma senhora acabasse de meter as garrafas na máquina Volta, para eu colocar as minhas. E foi isto. Um eclipse tranquilo. Talvez faça uma tatuagem “eu vi o eclipse” ou “amor de eclipse”. Nunca se sabe. Se tivesse estado em Bragança, isso sim era certinho. “Bragança 2026!”.

Com tudo isto, os telejornais  deram as verdadeiras notícias a correr. O casamento do Ronaldo foi falado pela rama e não se chegou a saber qual a marca do contentor onde o Trump se escondeu, entre outros temas de destaque. Já sem menos importância, pelos vistos há exames que se “eclipsaram” e aqui a “trinca” foi total, porque não voltaram a aparecer.

E depois do frenesim de ontem, voltamos à nossa vida, e aos vários “eclipses”, a que vamos ligando pouco, e que nos fazem “eclipsar” diariamente muitos euros a favor do Estado, e com contrapartidas muito fracas ou inexistentes. Já se tornou normal ir a uma urgência e levar uma tenda para passar lá “uns dias”. Já se tornou normal retirarem dinheiro da nossa conta a título de “comissão de gestão”, sem mais explicações.

Falando um pouco mais a sério, e acaba por ser este o motivo principal deste texto, é impressionante ver o que acontece às pessoas, quando lhes é anunciado que algo de extraordinário está para acontecer. Instala-se uma espécie de histeria coletiva, e percebe-se como é fácil influenciar uma multidão. As notícias multiplicam-se, as recomendações repetem-se, as redes sociais amplificam tudo e cria-se uma sensação de que estamos perante um acontecimento absolutamente excecional. É este fenómeno é que é preocupante. Cria-se a expetativa, acrescenta-se algum medo, repete-se tudo isto incessantemente. Os grandes manipuladores da história, vulgo ditadores, perceberam-no muito antes das redes sociais. Este tipo de gentinha desde muito cedo percebeu que uma população excitada ou assustada é facilmente convencida, e muito fácil de conduzir, quer o tema seja bom ou mau, ou mesmo muito mau, péssimo!

A forma como alguns acontecimentos são apresentados, amplificados e emocionalmente explorados pode alterar completamente a nossa perceção da realidade, porque há sempre aquela máxima “está toda a gente a falar sobre isto!”. Logo deve ser importante… Nos últimos dias foi um eclipse, amanhã pode ser outra coisa qualquer, bem mais grave. O fenómeno vai e vem, o mecanismo humano pode permanecer. E nos tempos em que vivemos, estas “artimanhas” estão já bem presentes na nossa sociedade. Uma mentira contada muitas vezes passa a ser uma verdade.

Voltando a um texto mais leve e humorado, deixo aqui o programa de festas para todos aqueles que agora descobriram a paixão pelos eclipses. Não deitem fora os óculos!

2 de agosto de 2027. Eclipse solar às 09H50, visível no sul de Espanha e norte de Marrocos. Dizem que Cádis é o melhor sítio. Ceuta, no norte de África também dá e estranhamente continuam em Espanha.

26 janeiro 2028. Desta feita um eclipse lunar. Já sem óculos… finalmente, que aquilo não dá jeito nenhum! Visível no Alentejo e Algarve. Levem agasalhos e chá quente, que deve estar “briol”. Deixem as minis para outra altura. Vá, levem uma ginja. Se estiverem ao pé de algum rio navegável e ouvirem um som forte, não é o mundo a acabar. Devem ser lanchas rápidas a transportar “mercadorias”. Acho que são perecíveis, porque elas andam sempre na “esgalha”. Algo congelado certamente e há quer manter a cadeia de frio.

Para os resistentes, teremos de novo um eclipse total daqui a 118 anos! Façam uma vida saudável, não fumem, não bebam, façam desporto, congelem-se e chegam lá! Não descongelem no dia do eclipse, porque a temperatura baixa dois graus e depois não veem nada.

António Cruz

13.08.2026




  • Diário de Odivelas - Redação

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