Crónicas do RAFU – Circunlóquio



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Temos cada vez mais políticos diretos, transparentes, frontais,  sem meias medidas, sem mãos a medir, que vão ao âmago da questão,  que falam das questões centrais, sem rodeios, sem subterfúgios, ou qualquer outra expressão que signifique exatamente o mesmo e permita falarem por tempo suficiente indicando que falam das coisas sem terem que realmente falar de coisa alguma.

O discurso político tem muito que se lhe diga, mesmo que não tenha nada a dizer. Não é qualquer pessoa que consegue preencher espaços vazios com pedaços de vácuo.

É comum ouvirmos grandes declarações sobre o país e o mundo que seguem este tipo de guião: “vamos agora iniciar a ponderação sobre a possibilidade de eventualmente porventura podermos considerar estratégias para o desenvolvimento de medidas que poderão levar a pensar que possamos ter maior consideração para um plano sobre isso.

Há que sempre analisar características que permitam encontrar pontos em comum para se transformarem em pontes de diálogo para chegar a acordos que fomentem discussões sobre a construção de estruturas que valorizem objetivos para concluirmos parâmetros para continuarmos na mesma.”

Fala-se muito da importância de círculos políticos, mas pouco se fala de como é importante os políticos falarem em círculos.  É o círculo da vida, começam muitas das vezes como comentadores políticos para evoluírem para políticos sem nada a comentar.

Quando as pessoas acham que um político falou muito num discurso sem dizer absolutamente nada, há sempre a possibilidade dele dizer ainda menos; e isto se tivermos a sorte de abrirem sequer a boca, ou não vão gastar saliva preciosa que podia ser usada para dar beijinhos a senhoras idosas nas arruadas ou folhear um maço de notas escondido.

Parece ser cansativo para eles o ato de terem de falar para os cidadãos. Isto é algo compreensível,  cidadãos não são as melhores pessoas com quem se pode falar. É sempre preferível falar com um amigo ou um fulano qualquer, mas falar com cidadãos exige perguntas e respostas, que acabam por ser já duas exigências a mais. Nenhum amigo ou fulano cobra sempre um discurso fluido e preenchido, até porque é muito mais difícil ter isso depois de uma noite de copos. É muito fácil ter o que falar com bebida em copos, difícil é falar da dificuldade de ter comida em pratos.

Não quero com isto dizer que se exige grande retórica e fluência verbal. Os políticos não vão para a política para poderem ter argumentos substanciais e eloquentes, mas sim para poderem usar uma quantidade de palavras tão grandes como “substanciais” e “eloquentes” ao ponto de não ser preciso ter de argumentar.

O compromisso no discurso também é algo importante. Antes da campanha comprometem-se a tudo: tudo é possível, prometem o mundo, o partido é jovem e cheio de esperança.  Mal conseguem o cargo e já nada é possível, não se podem comprometer, isto já não é de agora, estão a fazer o que podem e as pessoas sabem que a mudança é lenta…

E quando tudo isso falhar resta o último e derradeiro recurso do discurso político: a responsabilidade é de todos os que vieram antes. Digo mais, a responsabilidade é de todos os políticos anteriores. Arrisco mesmo dizer que é de todos eles. Todos ao mesmo tempo. A todo o momento. Só pode ser deles e vai sempre ser, até porque qual seria a alternativa? Assumir compromissos e falhas? Responder a perguntas? Dizer a verdade? Não parece boa política.

Imagem gerada pelo Copilot da Microsoft

  • Diário de Odivelas - Redação

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