Crónicas do Rafu | Tudo cor de Rosa







Os Bandidos do Cante dizerem que a sua “posição sempre foi musical e não política“, quando a música de cante mais famosa é a “Grândola Vila Morena“, é como se um funkeiro dissesse que nunca quis ver ninguém a abanar as nádegas.

Os vencedores do Festival RTP da Canção 2026 decidiram ir representar o país em Viena, apresentando a música “Rosa” e declarando que iria “ser bonito e…um desafio lindo”. Mas tal como todas as rosas têm espinhos, a deles não deixa de aleijar um pouco.

Tal posição foi vista por muitos como algo surpreendente, tendo havido alguma pressão social para um boicote à Eurovisão, perante a participação de Israel. Muitos artistas declararam publicamente que não iriam participar. A possibilidade de sair de algum lugar onde Israel está é um privilégio que muitos artistas têm e que muitos palestinianos gostariam de ter.

Ainda bem que não se trata de um evento político. Quando em 2018 Israel ganhou a competição, após uma forte campanha com mais de 100 mil dólares em promoção nas redes sociais, paga pelo governo do país, claramente não se tratou duma vitória política. Afinal, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel é claramente conhecido por ser uma organização isenta, que apenas gosta muito de música, cores e purpurinas.

Um dia antes de a Rússia ser banida da Eurovisão em 2022, a União Europeia de Radiodifusão disse que a iria manter porque não se tratava de “um evento político”. Como tal, no espaço de apenas um dia, mudaram completamente de opinião e decidiram que manter a Rússia “traria descrédito à competição”. Realmente. Agora, mudar de opinião num espaço de apenas um dia, afirmar que não é um evento político e tomar uma decisão política torna tudo muito mais credível.

A União Europeia de Radiodifusão argumentou que a expulsão da Rússia da competição foi devido à invasão à Ucrânia ter provocado uma “crise sem precedentes”. Aqui é que está a questão: no caso de Israel e a Palestina, o que não faltam são precedentes.

Mas, tudo bem, a Eurovisão é lá fora, talvez os Bandidos do Cante estivessem ainda e só a pensar no Festival RTP da Canção. Tal festival nunca teve nada de político quando em 2011 ganharam os Homens da Luta através do voto popular com uma música de crítica social numa altura de plena crise económica com grandes manifestações da chamada Geração à Rasca; nunca teve nada de político quando em 1973 elegeu a “Tourada” como música vencedora, sendo uma alegoria de crítica ao estado do regime suficientemente velada para passar pelas mãos da censura; nunca teve nada de político quando em 1975 foi composto sobretudo por músicas de intervenção, sendo o primeiro festival que não passou pela Comissão de Exame Prévio, etc.

Assim, lá foram de qualquer forma participar na semifinal da qual foram eliminados. Não deixa de ser irónico que a um grupo com nome de Bandidos seja roubada a possibilidade de chegar à final. Podia ser pior, dentro de coisas que podem ser roubadas, talvez esta doa menos que uma vida.

Depois de Portugal ter estado na final da Eurovisão 5 vezes consecutivas, pelo menos os Bandidos do Cante marcaram a sua posição, ainda que esta posição seja a de isentos de mais escrutínio.

É sempre bom poder ter posições só musicais, quando algumas posições políticas ainda resultam em bombas suficientemente barulhentas para impedir alguém de ouvir música.

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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