Diário de Bordo | Arábia Saudita – dias 5 e 6







Dia 5

Após um excelente pequeno-almoço de falafel, um dos pequenos-almoços mais viciantes do mundo, para nós, e de conseguirmos mais uns simpáticos seguidores indianos no Instagram, UBER para a estação de comboio de Dammam, onde apanharemos o comboio que nos levará até Riade.

O Wi-Fi na estação, apesar dos vários avisos de “Free Wi-fi”, não dá nada. A sorte é que a Ana foi pedir à SIXT, onde costumamos alugar os veículos e eles cederam acesso à rede deles. Comprámos antecipadamente o bilhete, já há muitos meses, e o nosso lugar lá estava à nossa espera, sem nenhum sobressalto, A viagem dura 4 horas, mas há serviço de bar a bordo.

Assim que o comboio partiu da estação, ouve-se uma oração. Tal como na companhia de aviação Jazeera, assim que o avião descola, há uma oração, pois era assim que o Profeta Maomé fazia, quando partia para as suas viagens.

Os passageiros são essencialmente mulheres e muitas, mas mesmo muitas crianças. Algumas acompanhadas pelas criadas particulares, muitas delas usando farda. Até vimos famílias, com mais do que um filho, em que cada criança tem a sua criada exclusiva. Na maioria são filipinas. As crianças são tantas, que até fizeram um aviso no comboio, para as supervisionarem, pois, a partir de certa altura, transformaram o comboio num verdadeiro parque infantil, o que até dava vida à monotonia da viagem, com uma paisagem quase sempre desértica.

Chegada a Riade e Uber para o hotel. E aconteceu o imprevisto do dia e talvez da nossa viagem. Chegámos à receção, quase sem luz, e um senhor de fato, com ar enfadado, diz-nos, num inglês macarrónico, “hotel closed”, e aponta para uma parede, onde dois grandes cartazes diziam, “CLOSED” pelo governo, por incumprimento das leis do Turismo, e com aviso de despejo. E agora? Entretanto, aproxima-se outro funcionário, talvez bagageiro, de origem indiana e que arranhava inglês, que nos dizia que não havia problema, porque eles tinham outro hotel. Estranhámos não termos sido notificados pela Booking, mas o hotel na realidade ainda continua online, apesar de fechado, ou não, porque entraram e saíram várias pessoas que nos pareciam hóspedes. Um filme. Tínhamos de ir para o outro hotel, mas que nem estava na Booking. Surge, entretanto, uma viatura particular que nos disseram ser o “táxi”. O senhor de fato dizia que era 10 SAR, o bagageiro dizia que afinal eram 20 SAR para a viagem, que pelos vistos ficava apenas a um quilómetro dali. Um UBER seriam talvez 3 ou 4 SAR. Tivemos de nos aborrecer um bocadinho, colocar ordem na coisa e… um passo de cada vez! Primeiro saber onde era o hotel, que ninguém nos dava a localização. Felizmente apareceu um “hóspede”, que nos mostrou no Google Maps. O senhor de fato só dizia “my friend! New! New!”. Lá entendemos que nos iam alojar numa unidade nova, pertencente a este grupo hoteleiro. O preço do “táxi” ficou pelos 10 SAR, para nos despacharmos. O bagageiro foi connosco para mostrar o caminho ao condutor, suposto “taxista” e foi outro filme, porque acho que chegámos ao novo hotel completamente ao acaso, pela quantidade de vezes que nos enganámos. Porém, logo à entrada, um dos cartazes dizia, “CLOSED”, tal como o outro. Só não tinha a ordem de despejo. Percebemos depois que este hotel ainda não está em pleno funcionamento, mas sim em pré-abertura. Está novinho em folha e fica próximo de uma estação de metro, situação que não ocorria com o outro. A troca até foi benéfica para nós.

Estando ao pé do metro, aproveitámos para comprar o passe de 3 dias. Em Riade as hipóteses de passes são de 3, 7 ou 30 dias, e pelo que um jovem libanês nos disse, e que nos ajudou na compra, apesar de ser um processo muito fácil, também dá para viajar nos autocarros. O metro foi inaugurado apenas há alguns dias, é automatizado, e grande parte dele é exterior. Aproveitámos o tempo ainda disponível, para ir ver, de noite, alguns edifícios icónicos, e uma zona da cidade completamente nova, a KAFD, o King Abdullah Financial District, um dos maiores e mais modernos centros financeiros do mundo, e que se destaca pela sua arquitetura futurista e sustentabilidade. A própria estação de metro tem uma arquitetura verdadeiramente surpreendente.

Amanhã é dia de deserto, pôr-do-sol nas dunas, jantar ao redor da fogueira, com um bom chá.

Arábia Saudita dia 6

Hoje o dia foi dedicado ao Edge of the World, uma cordilheira a cerca de 100 km de Riade, e que tem cerca de 1000 quilómetros de extensão, num ambiente desértico e árido. As montanhas esculpidas, contam a história da sua resistência à erosão. Toda a área já foi um habitat marinho, encontrando-se bastantes, fósseis na área. Um local imperdível para amantes de grandes espaços abertos e selvagens. O caminho é bastante acidentado, pelo que tem de ser percorrido numa viatura 4×4.

Optámos por agendar esta viagem com um operador especializado, adquirido via Get Your Guide. Um pouco antes da hora marcada, chegámos ao ponto de recolha, um pequeno café já no limite da cidade. E o grupo foi-se formando, com americanos, italianos, indianos, cubanos e mais algumas nacionalidades. Todos eles pessoas muito interessantes, e as partilhas de experiências de viagem, iniciam as conversas, sempre acompanhadas por um delicioso chá.

Antes da chegada à cordilheira, paragem intermédia, para visitar a caverna dos morcegos. Tem uma entrada muito pequena, mas o seu interior tem uma extensão até grande. Aqui já começam a aparecer cristais de sal, sinais do antigo oceano, que tornam o local colorido e misterioso, quando se apontam as lanternas. Apesar do nome, “Bat Cave”, morcegos não se vêm muitos. Apenas dois a esvoaçar atabalhoadamente e mais nada.

Finalmente chegamos ao destino do dia. O momento em que se chega ao limite da cordilheira é mesmo de tirar a respiração, pela beleza do local. Será muito difícil descrever esta sensação que nos invade e nos espanta, por palavras. Um miradouro natural, no cimo de escarpas com mais de 300 metros de altura e com vistas infinitas para as planícies desérticas. Verdadeiramente, estamos na “borda do mundo!”

Ali ficámos, sentados numa pedra, apenas a contemplar tamanha beleza, que ia alterando as suas tonalidade à medida que o sol ia no seu percurso descendente. Até que chega o pôr-do-sol, que transformou o espaço numa beleza e intensidade ainda mais profunda, tornando o espaço quase mágico!

Entretanto, uma senhora começou a ver as bandeiras da minha mochila e veio falar comigo, para saber o seu significado. Expliquei-lhe que eram países que já tinha visitado e ela começou a dizer nomes de alguns dos países, até que disse Portugal. Foi nessa altura que lhe disse ser esse o meu país. Não é que o filho dela, talvez com 10, 11 anos, ficou completamente extasiado e super feliz, porque… éramos do país do Ronaldo! Mais extasiado ficou quando eu lhe disse, brincando com a situação, que era vizinho do Ronaldo. Ficou completamente doido! Queria o meu autógrafo! Dia 9, vai ver um jogo ao vivo do CR7. Disse-lhe que lhe ia ligar ao Ronaldo, e que, caso marcasse um golo, o primeiro seria dedicado para ele. Espero que marque! Mas soube bem deixar uma criança mesmo feliz.

Já com a noite a cerrar, de volta ao 4×4, que nos levará ao acampamento, onde seria o jantar. A temperatura no deserto baixou consideravelmente, e o chá quente à chegada, soube maravilhosamente bem. Com o frio que se sentia, rapidamente o grupo  posicionou-se bem perto da grande fogueira, onde nos deliciámos com um festim de arroz com frango.

Chegados de novo a Riade, e como era relativamente cedo, fomos “gastar o passe” como dizia a minha avozinha, a fazer vídeos noturnos nas linhas do metro com circulação exterior.

  • Diário de Odivelas - Redação

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