
Penúltimo dia na Arábia Saudita, mas repleto de boas surpresas. Para hoje não tínhamos muitos planos para grande parte do dia, porque o que pretendíamos visitar só abre às 16H00.
Sexta-feira, dia principal de descanso nos países muçulmanos, transformou a manhã de uma confusão usual, para uma manhã calma e tranquila, com as ruas desertas de automóveis, de pessoas e com a maioria das lojas encerradas. Abertos, apenas alguns pequenos cafés, onde madrugadores, não muitos, tomavam um chá. O metro estava igualmente vazio.

Aproveitámos a cidade deserta e a boa luz, de um céu completamente azul, para fotografar edifícios icónicos da cidade, e perdermo-nos um pouco sem destino fixado.
Ocasião para experimentar a rede de autocarros, que, pelo que nos apercebermos, funciona muito bem. Quadros eletrónicos informam com precisão o tempo de chegada de cada autocarro. As paragens são fechadas e climatizadas.

Sem percebermos bem como, fomos parar ao mercado do peixe, onde, ao contrário da cidade, a azáfama era tremenda! É também uma zona de padarias, pelo que a chegada constante de clientes e os carros mal estacionados, tornava o trânsito caótico e barulhento. Mas adoramos estas confusões, e a visita ao mercado era imperdível.
Percebemos que aqui também se pode adquirir peixe, que é de imediato cozinhado no restaurante ao lado da banca. Mas surgiu um problema para que tal se tornasse realidade para nós. No mercado só falavam árabe. Tentei explicar que queria um peixe sem cabeça ou então em postas. Não entenderam e só vendiam peixes inteiros. Com cabeça, a Ana já não come, e poderíamos ter um problema gigante, pelo que a opção para almoço foi outra, fora do mercado de peixe. Acabou por ser um borrego biryani, que estava simplesmente divinal! Mas… e por vezes há um mas… aqui não se tira o picante da comida, quando somos turistas, o que para mim é excelente. Para a Ana foi mais complicado. A dada altura acho que até tinha comido o peixinho do mercado, com cabeça e tudo!

Com a hora da abertura dos monumentos a aproximar-se, no horário diferente das sextas-feiras, iniciámos caminho para os spots a visitar de tarde. O primeiro, o forte histórico da cidade, construído em pedra e lama, não se conseguiu visitar, por estar em completo restauro. Nem mesmo se vê nada, por estar totalmente coberto. Mesmo ao lado, o souq começou a despertar e as lojas foram abrindo lentamente, após a oração da tarde. Daqui para a frente acabou-se o sossego do dia, e tudo regressou à azáfama diária. As ruas rapidamente ficaram entupidas de trânsito, e optámos por ir a pé até ao primeiro palácio do rei fundador da Arábia Saudita. Pelo caminho, passámos por outro souq, onde milhares de pessoas circulavam freneticamente. Os restaurantes e as lojas estavam apinhados. Estava um completo caos, mas que adoramos!

Milhares de emigrantes aproveitam o dia de descanso, para fazerem compras na cidade, muitas delas a serem enviadas para as suas terras de origens. Agências de envio de encomendas e de envio de dinheiro, estavam superlotadas e com filas à porta. Princípio do mês, dia de folga, dinheiro fresco, provoca este frenesim. No interior do souq, o cheiro a incenso era intenso, mas muito agradável. Sempre que passávamos em frente às lojas, só se ouvia “Sister! Sister!”, numa tentativa de captar a atenção da Ana e fazer-se mais uma venda. Já na rua principal, um rapaz que fazia chaves, começa a gritar “Photo! Photo!”. Viu-me com a máquina fotográfica ao pescoço, situação cada vez mais rara nos dias que hoje, com os smartphones, e pediu-me para o fotografar. Era do Iémen. Antes da foto refez rapidamente o lenço que usa enrolado na cabeça, e fez posse de estadista. Apareceu outro funcionário que também quis. Era irmão do primeiro. Ficámos de enviar por WhatsApp as fotos, quando chegássemos a Portugal. De repente mais dois a quererem, e nova sessão fotográfica. Depois sessão com os quatro juntos. No final, e num gesto sensibilizante, o primeiro a chamar-nos, tira dois Masbaha, rosários muçulmanos, da prateleira e oferece-nos, com muito gosto. Quer oferecer também uma pulseira à Ana, que recusa, porque não era necessário. O nosso prazer foi imenso poder ter partilhado estes momentos come eles. Quando vamos embora da loja, olho para trás e tinha um montão de pessoas a assistirem a tudo isto, muito sorridentes, e todos queriam fotos e envios pelo WhatsApp. Era de todo impossível, satisfazer tanta gente. Apontámos para o relógio e estava na hora de partir. Mas estas interações com os locais, são deliciosas, e é isto que nos dá prazer e o que nos faz continuar a visitar vários recantos do mundo. São estas situações que nos ficam gravadas e que nos fazer recordar com saudade os locais que visitamos. Os dois Masbaha oferecidos, vamos guardar com muita estima. E regressámos ao percurso para o palácio do rei.

Não havendo mar em Riade, as arcadas do palácio e os seus jardins é uma das zonas onde as famílias estendem os seus tapetes, para o piquenique de final de dia. Nas várias praças do complexo, centenas de crianças andam de patins, trotinetes, bicicleta.
Estava difícil de descobrir a entrada, e questionámos uma senhora, que nos parecia trazer um bebé ao colo. Afinal era uma gata persa, muito molengona, que a jovem egípcia traz à rua para passear. Muito simpática, fez questão que a Ana pegasse na gata ao colo, para ver o quão ternurenta era a gata. Com as indicações, finalmente descobrimos a entrada. A visita é gratuita, mas não tem assim tanta coisa de interesse, como à partida se poderia pensar. Alguns objetos do primeiro rei, do seu médico, e muitas fotografias, em que destaco as tiradas com Winston Churchill. Expostos também os primeiros 4 carros do rei, já de idade museológica, mas muito bem conservados e restaurados. A arquitetura do palácio é muito simples, o que lhe confere uma beleza muito interessante.

A noite estava reservada para visitar o Boulevard City, pois o Boulevard World, tinha a lotação para hoje esgotada. O Boulevard City é de entrada gratuita, e para além de muitos ecrãs, que dá um ar de Time Square, é um parque de diversões, para endinheirados. Apenas a entrada é gratuita. Dali para a frente é para gastar dinheiro. Desde logo vários pontos com fotógrafos e com giratórias 360º para filmes. Todas as diversões são pagas, e pelo recinto existem dezenas de cafés, restaurantes e lojas de desporto. Máquinas de pequenos divertimentos estão espalhadas por todo o espaço, assim como as famosas máquinas do soco de boxe.
Uma das zonas é o Studios, onde se pode viver várias experiências, todas elas relacionadas com filmes. A do Harry Potter estava completamente à pinha, com uma fila bastante longa. Outra zona do espaço é ligada a antigos jogos de feira, como o cesto de basquete, as argolas nas garrafas, apanhar patinhos, entre muitos outros.
Em todo o recinto, o que mais me chamou a atenção na realidade, foi a playing list que passava, excelentemente bem escolhida. Fontes luminosas vão dando alguma vida ao espaço, sempre cheio de visitantes.

Regresso ao hotel e dificuldades em conseguir UBER, por ser fim de semana e muita procura. O primeiro condutor foi um desastre. Vimos na aplicação que nos foi buscar ao ponto onde nos devia ter deixado… vimos na aplicação que era o seu primeiro dia de trabalho. Esta viagem foi cancelada e fizemos nova tentativa, conseguida, mas demorada. Um jovem saudita veio ter connosco a questionar se precisávamos de alguma ajuda, porque já nos via ali há algum tempo, e a noite está fria. Explicámos o que se passava, e começamos na conversa com ele e os amigos, que divertidamente bebiam chocolate quente. Quando falámos em Portugal, foi a explosão. Um deles até já tinha visitado recentemente Lisboa, feito paraquedismo em Évora e passeado pelos Açores. Três deles, os mais participativos na conversa eram médicos, e estão a planear ir a Lisboa, por indicação do que já cá esteve. Foram 15 minutos de conversa, muito interessantes, e ficou já acordado que nos vão ligar quando forem a Lisboa, para um tour como deve ser. E acertámos já, que iremos todos a Évora saltar! Acreditamos que se forem a Lisboa nos contactarão, porque sentimos mesmo que eles ficaram entusiasmados com a ideia, e que iriam cumprir a promessa. Antes de aparecer o nosso motorista, tivemos de pedir algo no café, porque eles faziam imensa questão de aceitarmos. Troca de contactos de Instagram, e regresso ao hotel, que o conta-quilómetros das pernas hoje conta 26 quilómetros.
Arábia Saudita, último dia.
E pronto, acabou! Duas semanas pelo médio oriente, em mais uma descoberta de culturas, pessoas, gastronomia e lindas paisagens. Iremos para Portugal mais ricos certamente. O último dia foi mesmo para relaxar, e completamente sem destino ou algum tipo de preparação. Carregámos o cartão dos transportes com mais um passe de 3 dias, mais barato do que pagar viagens avulso, e decidimos ir ver as vistas da cidade pelo metro, porque uma parte importante da linha é exterior.

Como não conseguimos saber quais as linhas mais interessantes, fizemos quase todas, até sermos corridos pelo “pica”, porque mesmo com passe, não se pode andar mais do que duas horas sem sair do metro.
Estávamos perto do souq do dia anterior, e voltámos lá. Hoje muito mais calmo, com poucos clientes, o que permitiu umas interações muito interessantes com os comerciantes locais, sempre muito amáveis e cordiais, e com tempo para falar. Um deles, do Iémen, ofereceu-nos várias tâmaras. Com o cair da noite, o trânsito voltou ao frenesim habitual e chegou a hora de ir buscar as malas ao hotel e jantar. A viagem para o aeroporto de metro, é demorada, mas como é habitual, chegámos com tempo de sobra.

Já no aeroporto, demos assistência a uma cidadã brasileira, que, sentada ao meu lado, não parava de falar com o filho ao telefone, e perguntou-me se estava na porta correta para o voo de Istanbul, o nosso destino também. Verificámos que o voo dela em Istanbul, com destino a São Paulo, saíria duas horas antes do nosso para Lisboa, descansámos a senhora, que a deixaríamos na porta de embarque para o destino final. Ficou tão agradecida! Deu logo a novidade pelo telefone ao filho, e viu-se que estava muito aliviada. Soubemos depois, que o filho vive na Arábia Saudita com a mulher, ambos treinadores das seleções nacionais deste país de Jiu-Jitsu, em masculinos e femininos. A senhora veio ver a neta que nasceu há um mês.
Depois do primeiro voo, muito tranquilo, deixámos a senhora na porta de embarque, muito agradecida, e aguardamos pelo nosso que nos levará de regresso a casa. Tínhamos em mente ir tomar o pequeno-almoço à cidade de Istanbul, o tradicional burek, mas houve alterações aos horários inicialmente previstos e a escala encurtou bastante. No aeroporto de Istanbul, toma-se um café e deixa-se um rim. É tudo caríssimo. Já acabaram com a limitação de internet a uma hora e agora está sem limite de utilização.
Em resumo, mais dois novos países explorados, Kuwait e Qatar, outro explorado com mais profundidade, Arábia Saudita, e vontade de conhecer o resto do médio oriente, que nos espanta todos os dias com a hospitalidade com que nos recebem. Há que nos lembrarmos sempre, que uma coisa são as pessoas, outras são governos, e muitas vezes estes últimos, criam uma imagem negativa de um país, que depois nada tem a ver com a realidade vivida localmente e por quem nos acolhe. Esta viagem teve uma organização difícil e complexa e a Ana fez mais uma vez um trabalho excelente, na sua preparação. Daqui a uns meses estaremos de volta a Istanbul, para mostrar a cidade e a sua gastronomia local a um grupo de amigos, que decidiram juntar-se a nós, em mais uma “tryp” por esta cidade mágica, onde não nos cansamos de vir, mas que está a ficar muito cara. Os turcos, se não se cuidam, um dia estará vazia. Lá para o Natal, creio que o médio oriente nos vai chamar de novo e voltaremos ao sistema preferido de descobrir um país, reservando apenas voo e carro e depois seja o que Deus quiser. Mais novidades seguramente em breve. Última nota: entre 7 voos, carro alugado, comboio, 4×4 e muito transporte público, contabilizámos 200 quilómetros a pé.






