
É surpreendente como vários estudos têm demonstrado que cada vez mais o ser humano está a sentir maior empatia para com animais de estimação (pets) do que para com os seus semelhantes, algo assustador e que nos deve levar a uma profunda reflexão social e moral.

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Em Portugal e segundo o Sistema de Informação de Animais de Companhia ( SIAC) o número de animais registados ultrapassa os cinco milhões – habitam em cerca de 54% dos lares portugueses – realidade que se aproxima da dos países considerados mais “pet friendly”, como Itália, Reino Unido e Países Baixos (https://www.siac.pt/pt/estatisticas) onde os pets podem acompanhar os seus tutores na ida aos restaurantes e cafés.
O debate entre a recente “humanização” dos animais e a crescente “desumanização” de muitos seres humanos, está aí bem vivo. Trata-se de um fenómeno contemporâneo e que nos revela um paradoxo social intrigante.
“(…) “É inacreditável que hoje se passeiem mais os cães do que as crianças”
(Carlos Neto, investigador da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa)
Na realidade, a ideia que perpassa hoje é que se dá mais atenção à proteção aos animais que, por exemplo, a idosos e a seres humanos mais vulneráveis.
O facto de nos indignarmos, e bem, com o abandono e maus-tratos a animais, ao mesmo tempo, que, por exemplo, aceitamos e toleramos que idosos sejam encostados e muitas vezes abandonados em lares, privando-os de toda a sua dignidade e identidade – uma clara forma de desumanização – mostra a contradição que paira na sociedade. E porquê? Porque a entrada num lar, na maioria das vezes, “não protege: acelera…, envelhece-se mais depressa”, refere o Professor da Universidade de Évora, Manuel Lopes.

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Acontece que, ao transferimos características, afetos e comportamentos humanos para os animais de companhia, ao ponto de os tratarmos como “membros da família” (Antropomorfismo) e contrariamente não sentirmos algum tipo de empatia – a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, sem qualquer tipo de julgamento – ao cruzarmo-nos na rua com um desconhecido ou mendigo que precisa de ajuda, é algo que a condição humana está a perder e que nos deve incomodar.
Recorde-se que, e recorrendo ao ensinamento da parábola do “Bom Samaritano”, a decisão de ignorar, seguir adiante ou parar, é sempre nossa.
[A compaixão começa quando a indiferença termina]
Se paramos na rua para cuidarmos de um cão ou gato que precisa da nossa proteção porque ignoramos e seguimos em frente quando alguém, semelhante a nós, pede ajuda?
Será por desconforto moral que sentimos ou apenas falta de coragem
e falta de empatia em relação ao “Outro”?
Ora, quando a empatia diminui, é quebrada a corrente de solidariedade e a coesão coletiva e cresce a indiferença e desumanização. Perdemos todos.
Se a reconhecida senciência dos animais – a capacidade de sentir dor, medo ou alegria -são um sinal de evolução civilizatória, do mesmo modo cuidar e proteger o nosso semelhante é nosso dever.
“A questão não está em saber se eles podem pensar ou falar, mas sim se podem sofrer?”
(Jeremy Bentham, Introduction to the Principles of Moral and Legislation, 1788)
Chegados aqui como entender então esta mudança de comportamento e esta inversão de valores? Serão, por certo, vários e diversos os argumentos que poderemos encontrar.
A começar desde logo pelo aumento das taxas de solidão e de isolamento sobretudo nas zonas urbanas, onde os animais (cão e gato) vieram preencher as necessidades de companhia e de afeto, tornando-se uma fonte de alegria e bem-estar no dia a dia.
De acordo com as neurociências, a ocitocina, conhecida como a “hormona do amor e do apego”, é a grande responsável por esse forte vínculo criado.
Dados bem elucidativos dos benefícios morais e mentais dos animais para os seus tutores é o facto de muitos lares de idosos já permitirem que os seus pets os visitem.
O próprio Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem programas pioneiros que permitem a visita de animais de companhia a doentes internados, iniciativas estas que além de ajudarem a combater o stress e a solidão, promovem a sua recuperação. Tal já acontece em Lisboa, nos hospitais Egas Moniz, São Francisco Xavier e no Hospital de Santa Cruz.
Outra possível razão terá a ver com as transformações sociais e económicas ocorridas nas últimas décadas na Europa e em Portugal que alteraram o estilo de vida da população.
Com novos modos de vida emergiram novas estruturas familiares, com uma diferente visão sobre a família – ter filhos passou a ser um projeto de vida adiado – passando a vida pessoal e a carreira profissional a serem prioritárias, abrindo aqui espaço para a opção pelos animais de companhia, uma situação bem mais tranquila e segura e de menor carga de responsabilidade futura.
Com efeito, esta sociedade individualista, hedonista (busca incessante pelo prazer) e altamente competitiva em que vivemos, muito focada na realização pessoal e onde os relacionamentos tendem a ser líquidos e superficiais (Zygmunt Bauman), leva a que hoje o individuo, e muitos casais, mais facilmente se decidam por quem lhe oferece, de imediato, lealdade, amor incondicional e por quem não o julga e contesta, algo mais difícil de alcançar nas relações humanas, que envolve expectativas e exige reciprocidade, compromisso e muito diálogo.
Amar e entender um animal é relativamente fácil. Entender e amar outro ser humano é mais complexo.
É verdade que os animais, frequentemente vistos como seres mais vulneráveis, inocentes e incapazes de malícia, sempre estiveram presentes na vida do ser humano, razão pela qual o elo emocional criado entre ambos se foi fortalecendo.
A convivência e a ligação com os humanos são uma das mais antigas e duradouras parcerias do planeta.
De acordo com registos arqueológicos o cão terá sido o primeiro animal a ser domesticado – muito provavelmente a partir do lobo-cinzento – uma aliança e uma cooperação que começou há milhares de anos tendo-se tornado desde sempre um forte aliado do Homem sempre pronto a protegê-lo e auxiliá-lo em atividades como o pastoreio.
Tal como foi grande o contributo dos animais no desenvolvimento da Revolução Agrícola
permitindo ao Homem produzir mais alimentos, mais vestiário, maiores deslocações, etc. São os casos dos animais de produção (ovinos, bovinos, suínos) e dos animais de transporte (cavalos e burros).
Sem esquecer o simbolismo que lhes era atribuído em civilizações como o Antigo Egito, onde os animais eram venerados e vistos como representações de divindades e como podemos observar em diversas pinturas rupestres.

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De modo que, até se tornarem animais domésticos como hoje os conhecemos, um longo caminho foi percorrido. De cães de guarda aos rebanhos e amigos do Homem na caça passaram a ser incluídos na família adaptando-se rapidamente à vida doméstica e às suas rotinas diárias.
Foi a partir do século XX que cães e gatos deixaram de viver na rua e no quintal, transitando para um espaço confortável no interior da casa, e passando até a ser tratados como um membro de família (“filhos de quatro patas”).
Em contrapartida enquanto o pet ganhou um novo status, muitos idosos perdem o seu, pois, e sem querermos generalizar, aceitamos agora que muitos idosos sejam afastados do conforto do seu lar para serem institucionalizados num espaço comum junto de outros “adultos mais velhos”, onde o isolamento físico e emocional irão fazer parte do seu dia-a-dia.
Contradições desta “Modernidade Líquida”, conceito utilizado por Zygmunt Bauman para descrever a forma da sociedade contemporânea.
Na sua perspetiva, transitámos de uma “Modernidade sólida” — onde as instituições e os laços sociais eram fortes e as relações familiares eram planeadas a longo prazo — para uma era onde tudo é efémero, volátil e descartável.
Porém, pelo papel e pela relação que os animais sempre desempenharam e continuam a desempenhar nas nossas vidas é da maior importância manter e reforçar esta cooperação.
Se ao longo dos tempos conquistámos os animais também eles souberem conquistar-nos, pelo que, respeitar e valorizar os animais é inteiramente justo, postura que nos tornará melhores seres humanos.
Para terminar e procurando responder à pergunta de partida.
Como seres racionais que somos cabe-nos respeitar a natureza tal como ela foi criada, nunca perdendo o foco na primazia e no valor da vida humana.
O animal é um ser dotado de sensibilidade, é um ser senciente. Gostar de animais e tratá-los bem (sem cair em excessos) só nos engrandece.

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Como sustenta a Ecologia Humana “interagimos e dependemos do nosso ambiente. A nossa relação com os animais é central: define a nossa sobrevivência através da cadeia alimentar, influencia a nossa saúde global e reflete a nossa evolução ética e cultural”.
Contudo, para muitos a inquietude e o desassossego ocorrem quando a empatia pelos animais tende a substituir, e por vezes, a sobrepor-se à empatia pelos seres humanos.
Se garantir a dignidade e respeitar a senciência e a natureza dos animais é nosso dever, entendemos que, e sem pretendermos abordar o utilitarismo de Peter Singer e a Perspetiva Deontológica de Thomas Regan, também é nosso dever ético e moral não descuidar o nosso semelhante.
Se fomos capazes de criar empatia com os animais, compete-nos agora aperfeiçoar o nosso olhar diante de um desconhecido e, sem reservas ou pré-julgamentos, colocar-nos no lugar dele, compreendê-lo e apoiá-lo em caso de necessidade.
Se a proteção animal e o bem-estar animal refletem uma evolução cultural da sociedade, o cuidado e a solidariedade humana sempre fizeram parte do nosso ADN, tendo sido fundamentais para a sobrevivência da espécie humana ao longo dos tempos.

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Saibamos, pois, promover uma sociedade mais justa e inclusiva, onde a empatia se estenda a todas as formas de vida, sem excepção.
Carlos Jesus
Licenciado em Sociologia,
Mestre em Ecologia Humana








