
Hoje o amanhecer foi bem cinzento, e as lojas despertavam lentamente do seu repouso noturno. Os lojistas mais madrugadores, iam expondo, com cuidado, os seus produtos, criando autênticas formas geométricas. Aqui valoriza-se muito a apresentação do produto.

A chuva voltou a aparecer, felizmente com pouca intensidade, mas mesmo assim, iniciámos mais um dia de exploração da parte asiática.

A primeira visita do dia foi a de tentar visitar a antiga estação de comboios, a Haydarpasa, construída em 1908. Esta era a principal estação de comboios desta parte da cidade, com ligações para toda a Anatólia, como as cidades de Ancara e Izmit. A sua ligação direta ao Bósforo, permitia uma logística rápida no trânsito de mercadorias e passageiros. Infelizmente, em 2010, um grande incêndio levou ao seu encerramento, estando a ser totalmente restaurada, bem como toda a sua zona envolvente, onde foram descobertos vestígios arqueológicos de várias épocas – grega, romana, bizantina e otomana. Esta estação monumental fazia parte do antigo projeto chamado a linha de Bagdad, que ligaria a Anatólia Central ao Iraque, passando pela Síria, Mesopotâmia e terminaria na cidade de Bagdad. Passaria a ser uma peça fundamental no comércio entre a Europa e o Médio Oriente. A 1ª Guerra Mundial levou à suspensão do projeto. Esperemos que no nosso próximo regresso a Istanbul, já a possamos visitar. As obras parecem decorrer a bom ritmo.

Gorada esta primeira visita, seguimos de autocarro para o Parque Otagtepe, na zona de Beykoz, e que tem, seguramente, umas das mais belas vistas panorâmicas do Bósforo e do lado europeu da cidade. Tem um ambiente muito tranquilo, e é um espaço ótimo para relaxar um pouco, em tranquilas caminhadas pelos seus trilhos, sempre muito verdejantes e, nesta época do ano, bastante floridos.

A escolha para o almoço de hoje recaiu em borek e pide, duas iguarias gastronómicas desta zona do globo. Para os puristas da gastronomia, e fazendo como a população local, acompanhado de ayran. Explicando:
Borek – um dos pratos mais tradicionais da Turquia e de toda a região dos Balcãs e antiga área otomana. É uma espécie de pastel salgado feito com camadas muito finas de massa chamada yufka (parecida com massa filo). Pode ter vários recheios, como: queijo branco, carne picada temperada, batata, espinafre com queijo. Os nossos preferidos são os de queijo branco e carne. Normalmente tem a forma de um rolo encaracolado. É muito crocante por fora e muito macio e suculento no interior.
Pide – outro dos pratos mais típicos da Turquia, muitas vezes chamado “pizza turca”, embora seja algo com identidade própria. É feito com massa de pão levedada, que se molda em forma de barco, e é recheado antes de ir ao forno. Fica com as bordas crocantes, o centro macio e um recheio suculento, que pode ser de carne picada, queijo, espinafres, salsicha, entre outros.
Ayran – uma tradicional bebida turca, feita de iogurte natural, água e sal. Serve-se bem fria e acompanha quase todas as refeições.
Enquanto desfrutava de um reconfortante chá turco, depois desta deliciosa refeição, um dos funcionários vem ter comigo à esplanada, muito aflito, e percebi que era para eu ir ao interior do estabelecimento. Inglês, nenhum empregado falava. Percebi então que a Ana estava presa na minúscula casa de banho! A fechadura tinha uma tranca de plástico, já muito gasta, e seria necessária força para conseguir rodar a pequena peça que abriria a porta. Pelos vistos já era costume, porque no final até percebemos que havia um alicate no interior para ajudar nessa operação de abertura de porta, mas com uma comunicação difícil, não conseguimos perceber a existência dessa “mágica” ferramenta. Com paciência e engenho, e um facalhão da cozinha, lá se conseguiu rodar a fechadura pela parte de fora e a porta, finalmente, abriu!

Depois de mais esta “aventura”, apanhámos autocarro para descer a encosta, a caminho do bairro de Beylerbeyi, já nas margens do Bósforo. Um bairro muito simpático, onde os gatos eram alimentados de pequenas anchovas acabadas de pescar. Visitámos a mesquita junto à água, a Mesquita de Beylerbeyi, pequena, simples, mas muito bonita no interior. Foi construída em 1778, pelo sultão Abdulhamid I, em memória de sua mãe. Servia para a família imperial rezar, aquando das suas estadias deste lado da cidade. Um local muito tranquilo, onde aproveitámos para ter um pequeno período de introspeção.

Depois deste momento de relaxamento espiritual, a próxima situação seria de quase absoluto caos, mas no bom sentido. Finalmente iriamos à Mesquita Camlica, aquela visita que foi sempre sido adiada no dia anterior. Naquela zona da cidade o transporte público mais rápido para a Mesquita, é o “dolmus”, uns minibuses partilhados, de cor azul, que percorrem os bairros mais interiores e de estradas mais estreitas e sinuosas, em versão “Rally”. Só se pode pagar a viagem em dinheiro. À entrada, dizemos para onde vamos e o motorista informa-nos o valor a pagar. Quem fica longe do motorista, vai passando o dinheiro de mão em mão entre os passageiros até chegar ao motorista, sendo que o troco regressa no caminho inverso. Confuso, mas funciona na perfeição! E toda a gente paga, mesmo sem o motorista ver que entram, o que é deveras impressionante! Entre recebimentos, trocos, esclarecimentos e condução sempre a abrir por pequenas ruelas, o motorista é o faz tudo desta história. O nome de “dolmus” tem origem na palavra turca “cheio”. Antigamente, este transporte informal, só partia quando estivesse com a lotação completa, ou seja, “cheio”.

E, após alguns adiamentos, chegamos à Mesquita Camlica, a maior da Turquia e uma das maiores do mundo. Fica no ponto mais alto da cidade, com uma vista magnífica para quase toda a Istanbul. Projeto moderno, monumental, com influências na arquitetura otomana clássica. Tem capacidade para 60.000 pessoas e possui 6 minaretes. A sua construção terminou em 2019. Muito em breve será servida por estação de metro. Os seus enormes e largos terraços, são um dos locais ideais para apreciar todo o esplendor e beleza desta cidade tão icónica.

E regressamos à paragem do autocarro, que nos levará ao próximo destino, a Mesquita Sakirin. Esta mesquita tem uma arquitetura e design muito modernos, e foi, pela primeira vez na Turquia, projetada por uma mulher. É um local muito tranquilo, e que aproveitamos para um segundo período contemplativo do dia. É aqui que decorrem muitas cerimónias religiosas de funerais, uma vez que a mesquita fica no interior de um gigante cemitério, o cemitério Karacaahmet, um dos mais antigos e importantes da cidade. Existe desde o século XIV, e desde essa altura, manteve sempre atividade. Muitas das lápides, as mais antigas, têm inscrições em árabe otomano. Na tradição islâmica otomana, o cemitério é visto como um lugar espiritual, e não algo para esconder. É local de passagem para muitas centenas de pessoas diariamente. Todos têm caminhos, fontes, bancos e árvores, como se de um parque se tratasse. Curioso.

Decidimos ir a pé até Uskudar, passeando pelos bairros residenciais, procurando detalhes para fotografar. De repente, o trânsito ficou caótico. Mais à frente percebemos que a origem desse caos tinha a ver com militares, que iam cortando o trânsito em vários cruzamentos. Finalmente percebemos um motivo. Perto de um quartel, com vários canhões na rua, decorriam cerimónias fúnebres a dois militares, cujos caixões passaram por nós, cobertos com a bandeira turca, numa viatura militar.

O nosso por do sol de hoje seria junto ao Bósforo, em Uskudar, mesmo em frente à Torre Kiz Kulesi. Esta torre tem a particularidade de estar numa pequena ilha no meio do Estreito. Já tem mais de 1.000 anos, e já teve diferentes usos, como posto de controlo marítimo ou farol. Reza a lenda que a torre foi construída por um sultão que recebeu uma profecia, que lhe dizia que a sua filha morreria em consequência de uma picada de serpente. Para a proteger dessa profecia, o sultão mandou construir a torre no meio do mar para colocar a filha, e em local onde as serpentes não chegaria. Mas, uma serpente conseguiu esconder-se numa cesta de fruta que seguia para a torre e a profecia cumpriu-se.

O por do sol foi lindíssimo, e o local estava apinhado de pessoas, que apesar do frio, se mantiverem firmes, para assistir a tamanha beleza. No local, vários vendedores iam passando, e os deliciosos simit, conjugados com um chá bem quente, melhoraram bastante o nosso ambiente. No Estreito, o movimento de navios estava muito intenso, originando belos recortes e sombras, destes gigantes ao final do dia Um tema excelente para se fazerem umas fotos mais artísticas..
Para o jantar, a escolha recaiu em mais um prato turco muito popular e verdadeiramente delicioso, o Lahmacun. Com o formato de pizza, é feito de uma base muito fina e estaladiça, que é depois coberta com carne picada, tomate, cebola, pimentos e especiarias. Vai ao forno e fica muito crocante. Come-se enrolando-se como um wrap, adicionando sumo de limão e salsa. Para bebida, clara está, ayran! (nem todos…)
Último autocarro do dia, para regresso a Kadikoy. As ruas do bairro estavam apinhadas de pessoas, que, alegremente, jantavam nas muitas esplanadas que existem. Tempo ainda para um último chá.







