
O que diferencia Portugal de Espanha e de França na resposta aos incêndios florestais?
São várias, e muito relevantes, as diferenças entre estes três países. Começaria por uma constatação imediata, tomando Portugal como ponto de partida: nas últimas duas décadas, o país aprendeu muito. Ano após ano, os incêndios florestais revelaram novos desafios, para os quais nenhum sistema de proteção civil, nem qualquer governo, estava verdadeiramente preparado. Refiro-me, desde logo, aos incêndios cujas características os tornam insuprimíveis, independentemente da quantidade de meios empregues ou da dimensão do dispositivo mobilizado.
Nestes casos, simplesmente não existe combate eficaz possível. Ou se esgota o combustível disponível, ou as características do incêndio se alteram em consequência das condições meteorológicas, permitindo a adoção de uma estratégia eficaz de supressão.
Até que isso aconteça, resta apenas atuar numa lógica defensiva.
Importa agora analisar o que Portugal aprendeu e de que forma esse conhecimento tem vindo a ser implementado, tornando o país, em determinados aspetos, melhor preparado do que Espanha e França.
Hoje sabemos que, sempre que as condições ambientais favorecem o desenvolvimento de incêndios potencialmente insuprimíveis, a estratégia operacional deve prosseguir um único objetivo: dominar o incêndio no mais curto espaço de tempo possível. Para tal, importa empregar, desde o primeiro momento, todos os meios disponíveis e, ao menor sinal de que o incêndio não está a ceder à ação inicial, avançar, sem hesitação, para um ataque ampliado, tão robusto quanto as condições táticas o permitam.
É precisamente neste ponto que surgem algumas das diferenças mais significativas. Em Espanha, por exemplo, verificaram-se situações em que a Unidade Militar de Emergências (UME) permaneceu durante vários dias empenhada com pouco mais de um milhar de operacionais. Entretanto, o incêndio ganhou intensidade, passou a dominar o espaço e o tempo operacional e tornou-se rapidamente insuprimível. Em França verificou-se, em termos gerais, uma situação semelhante. Ambos os países mantiveram uma postura predominantemente reativa, tal como Portugal fez durante várias décadas.
Existem, contudo, outras três diferenças relevantes no caso português.
A primeira é de natureza estrutural. Portugal assenta a sua resposta num dispositivo misto, constituído por elementos com vínculo profissional e por elementos com vínculo voluntário. Esta organização permite mobilizar, numa primeira abordagem operacional, um dispositivo de cerca de 15 000 operacionais, conferindo uma capacidade de resposta inicial particularmente robusta.
A segunda diferença reside na capacidade tática de iniciar o combate de forma musculada e de evoluir, com grande rapidez, para uma estratégia ofensiva baseada no ataque ampliado. Não há dúvida de que estas duas componentes constituem fatores decisivos.
Existe, porém, uma terceira diferença, talvez a mais determinante: a vontade política de assumir a mudança de paradigma na gestão dos incêndios florestais e de apoiar uma atuação proativa de todo o sistema de proteção civil, sempre que o ambiente de fogo (entendido como a conjugação entre as condições meteorológicas e o complexo de combustíveis florestais ), indique a probabilidade de ocorrência de um incêndio catastrófico.
Assim, Espanha e França confrontaram-se recentemente com esta mudança de paradigma. Embora disponham de bons profissionais e de meios relevantes, não beneficiam, na mesma medida que Portugal, do contributo proporcionado por um sistema de voluntariado com a dimensão que o nosso país ainda preserva.
Ainda estamos no início do verão. Contudo, é já possível afirmar que Portugal alterou a sua postura operacional, abandonando uma lógica predominantemente reativa em favor de uma abordagem proativa. Haverá, inevitavelmente, incêndios que conseguirão ganhar vantagem sobre o dispositivo de combate. Todavia, estamos hoje mais próximos do caminho adequado, porque soubemos reconhecer, com humildade, a mudança de paradigma e responder-lhe com inteligência, coragem e determinação.
Referência (APA 7.ª edição) – Rodrigues, A. J. M. (2026, 26 de julho). *O que diferencia Portugal de Espanha e de França na resposta aos incêndios florestais?







