Diário de Bordo – Chipre – dia 6







Saída de Pafos para o próximo destino, Larnaca, uma das cidades mais antigas do Chipre, sendo uma das mais antigas cidades do mundo habitadas continuamente, desde há 3 000 anos.

Mas, no caminho, ainda passamos, segundo indicações do GPS, pelo Reino Unido, que nos indicou estarmos a atravessar uma fronteira. Sim, perceberam bem, fronteira para o Reino Unido. Mais concretamente atravessamos terrenos da Base Aérea Soberana de Dhekelia, considerado território britânico.

Como já anteriormente falado, o Chipre é uma manta de retalhos muito, mas muito complicada! Na realidade, ficámos com a sensação de que não existe o verdadeiro Chipre, mas sim Grécia de um lado e Turquia do outro. No lado cipriota grego, a bandeira grega acompanha sempre a do Chipre, inclusive nos postos militares. Do lado da República Turca do Norte, a bandeira turca acompanha sempre a quase idêntica bandeira da República Turca do Norte. Talvez por isso a unificação não tenha nunca sido possível de fazer. No meio disto tudo, uma parte da ilha é do Reino Unido, e a UN anda por ali, a patrulhar a linha divisória. E ainda existe um enclave da Républica Turca do Norte, na parte sul do Chipre grego. Complicado? Certamente que sim! Um imbróglio de difícil ou impossível resolução, dado todo o percurso e acontecimentos que resultaram da independência em 1960.

Tirando esta pequena explicação, voltamos à nossa viagem e ao conhecimento da rica história do país.

Hoje começámos pela visita ao Santuário de Apollo Hylates. Foi na sua época um dos mais importantes centros de culto da ilha, dedicado ao deus Apolo, na sua forma de Hylates, ou seja, como protetor das florestas. Este deus poderia assumir diversas formas, situação algo confusa, mas na realidade acaba por ser um pouco a realidade presente do Chipre, também ele muita confusa, no que respeita à sua organização territorial. Este Santuário desempenhou uma função longa no tempo, desde o século VIII a.C. até ao século IV d.C., ou seja, 1.200 anos! Aqui se faziam oferendas, sacrifícios, orações, promessas, procissões e purificações. Muito semelhante aos dias de hoje, retirando os sacrifícios.

Um pouco mais à frente parámos no Estádio de Kourion, um recinto desportivo do século II, com capacidade para 6.000 espectadores. Está bastante danificado, e na sua época foi utilizado para competições de atletismo, nomeadamente o pentatlo.

Logo de seguida parámos no local arqueológico de Korion, uma das mais importantes cidade-reino da Antiguidade do Chipre, que se destacou pela sua importância política, económica e cultural. O complexo inclui vários monumentos, como o teatro greco-romano, que, apesar da sua idade, continua a ter uma acústica fantástica, e uma vista deslumbrante. Destaque também para os mosaicos representativos de gladiadores, a zona de banhos públicos e a Casa de Eustolios, um dos edifícios mais importantes do complexo arqueológico. Originalmente construída como uma residência privada, foi posteriormente transformada num complexo de banhos e espaços de convívio público. O edifício destaca-se pelos seus belos pavimentos de mosaico, com motivos geométricos e inscrições de carácter cristão. A Casa de Eustólios constitui um importante testemunho da transição entre o mundo pagão e o cristianismo na Antiguidade Tardia. Reparei num detalhe, que é a utilização de manilhas de barro para canalizações, algo que ainda se vê muito em prédios mais antigos em Lisboa. A cidade entrou em declínio a partir do século IV, causado por graves terramotos que assolaram a ilha. A visita custou apenas 4,50 € por pessoa.

Fomos visitar um Mosteiro, que nos despertou a atenção pelo seu curioso nome, o Mosteiro de São Nicolau dos Gatos, situado perto de Akrotiri e um dos mosteiros mais antigos da ilha. Segundo a tradição, Santa Helena, mãe do imperador romano Constantino, o Grande, o primeiro imperador romano a favorecer amplamente o cristianismo, terá mandado trazer gatos para a região, no século IV, para combater uma grande infestação de serpentes. Os monges alimentavam os gatos, que, segundo a lenda, saíam ao som de um sino para caçar as serpentes. Esta tradição deu origem ao curioso nome do mosteiro, que continua associado à presença de gatos. Está em obras profundas, quase nada visitável, mas na realidade os gatos continuam a ser bastantes.

Seguimos em direção a Lefkara, uma pitoresca aldeia situada nas montanhas, bastante conhecida pela sua arquitetura tradicional, pelas ruas estreitas e pelas casas de pedra com bonitas portadas de madeira colorida. A localidade é especialmente famosa pelos lefkaritika, delicados bordados artesanais de renda, e pelo trabalho em prata. A visita à aldeia fora da zona turística, foi bem mais interessante.

Voltámos para junto da costa, para conhecer o famoso Famagusta View Point, em Deryneia. É apenas uma casa particular, que ficou mesmo à beira da linha divisória, hoje transformada em café e posto elevado de observação da zona da cidade de Famagusta, que já explicaremos o que é. Por 2 € por pessoa, podemos ver o filme sobre a cidade de Famagusta, conhecendo o antes e o atual, bem como subir ao terraço com um par de binóculos. Para mais “aventura” há um menu de 5 €, que inclui tosta e bebida. Na nossa linha de visão conseguimos ver diferentes postos de observação de ambos os lados desavindos, e no interior da linha é constante o movimento de jipes brancos da UN. Mais longe, já na linha do horizonte, fica Famagusta, e junto à linha costeira, dezenas de casas e hotéis, completamente abandonados. Uns por terem ficado na zona tampão, outros apenas abandonados porque sim.

Voltando a Famagusta, uma cidade atualmente fantasma, estava à altura dos conflitos na maior zona turística da ilha, Varosha, maioritariamente habitada por cipriotas gregos. Com o avanço do exército turco, em 1974, os seus habitantes fugiram, esperando regressar em pouco tempo. Tal não aconteceu, estando a cidade fechada e deserta desde essa época. Infelizmente não é visitável. Mas é uma visão triste, da separação que os conflitos provocam. Este ponto acaba por ser um lugar de reflexão e memória sobre uma história recente, que teima em não ser resolvida.

Não poderíamos deixar de ir à Igreja de Agios Nikolaos, em Pernera, uma pequena e pitoresca igreja ortodoxa dedicada a São Nicolau, padroeiro dos marinheiros. Com as suas paredes brancas e cúpula azul, destaca-se pela localização, mesmo junto ao mar, criando um dos “spots” mais fotografados da ilha. Decorria um casamento, no local, pelo que a beleza apenas da Igreja e do mar não foi conseguida.

Para terminar o dia, e combater o calor que se fazia sentir, e estando perto, fomos à mais badalada e famosa praia da ilha, Nissi Beach, situada em Ayia. Destaca-se pela sua beleza natural, com águas cristalinas de tons azul-turquesa, a areia branca e fina, a agradável temperatura da água, e o seu pequeno ilhéu (nissi, em grego) que dá nome à praia. Com a maré baixa, é possível chegar ao ilhéu a pé através de uma estreita faixa de areia, o que fizemos. É também uma praia com uma animação talvez excessiva, num “ambiente muito Ibiza”. Grandes colunas a debitar música, e alguns bares de praia transformam literalmente a areia numa pista de dança. Num deles decorria uma festa da espuma, certamente muito animada, pelo cambalear de muitos convivas, que de lá saiam.

Uma praia linda, que durante o verão, o turismo de massas, ali muito vincado, com dezenas de hotéis e milhares de pessoas, acaba por “tapar”. Mas, como escolhemos uma zona bem mais tranquila, longe dos shots de tequila e das gigantes colunas, a tarde conseguiu ser relaxante, com mais uma “demolha de bacalhaus”. Já o final de tarde, no nosso pequeno paraíso, repentinamente transformou-se no caos. O ilhéu foi “atacado” por dezenas, senão centenas, de adolescentes e jovens adultos, que freneticamente correm para spots fotográficos, carregando grandes sacos e mochilas cheios de adereços e acessórios, para gigantes sessões instagramáveis de fotografia. A verdadeira loucura, na escolha do melhor local e da melhor pose. Até acabou por ser divertido assistir a todo este frenesim, até chegar o por do sol, bem lindo nesse dia.

A escolha do alojamento de hoje, já em Larnaca, recaiu sobre um hotel que nos chamou a atenção na preparação que a Ana fez da viagem, pelo tema que o inspira e que nós adoramos. Ficámos no Hotel Rise Street Art, https://therisehotel.com/, um empreendimento completamente grafitado no interior e no exterior, dedicado completamente à arte urbana. O nosso quarto tinha a decoração inspirada em William Shakespeare, enquanto a porta apresentava uma homenagem aos Queen. Uma combinação inesperada entre literatura, música e street art, que tornou a estadia ainda mais original e memorável. Adorámos os detalhes dos candeeiros do quarto, feitos com latas de spray de tinta.

Mas a noite ainda nos reservava outra surpresa, desta feita gastronómica. Jantámos no restaurante Eu Kouzin, https://www.eukouzin.com/, e ficámos maravilhados.  A qualidade da comida, a apresentação dos pratos e a simpatia do staff, colocaram-no no pódio gastronómico desta viagem.

Terminámos a noite, com uma bebida de cortesia oferecida pelo hotel, no rooftop, que tinha um ambiente muito animado e uma vista interessante sobre a cidade.

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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