Diário de Bordo – Kuwait | Dia 2







Não sei se será habitual, mas esta manhã não havia trânsito, o que foi excelente para explorar a cidade. Aproveitando para falar sobre os hotéis neste país, o padrão de estrelas não corresponde aos padrões europeus. Na zona que queríamos, quando reservámos, só conseguimos um de 4 estrelas e nada barato, mas que afinal está num padrão de 2 europeu. Não é que sejamos muito esquisitos com alojamentos e já ficámos em cada buraco, sem problema algum. Quanto ao custo, a realização da Taça do Golfo, terá certamente inflacionado os preços, mas isso não sabíamos que iria acontecer. Fica o aviso para próximos viajantes.

Bem perto do hotel fica a Torre da Libertação, que, com os seus 272 metros de altura, simboliza o fim da Guerra do Golfo, que aconteceu durante os anos 1990/91. Na zona, dezenas, senão mesmo centenas de casas de câmbio, ocupam muitos dos espaços comerciais. Nos Souks existem também variadíssimas. Algo que ainda não compreendemos o porquê.

O primeiro objetivo de hoje era visitar a Casa de Sadu, mas antes disso, passámos por um café ou talvez um clube antigo, que nos prendeu de imediato a atenção. Alguns homens jogavam um jogo muito semelhante às nossas damas. O espaço era muito tradicional, mas fabuloso! Muito simples, mas ao mesmo tempo imponente! Amanhã talvez lá passemos para tomar um chá, e quiçá jogar umas “damas”. As regras pelo que me apercebi não são iguais às nossas, apesar de na essência ser o mesmo jogo. Mais tarde soubemos que se chama Al-Qirkat.

Ainda a caminho da Casa de Sadu, passámos pelo Palácio Presidencial e residência oficial do Emir, o Bayan Palace. O espaço é enorme, ocupando uma área equivalente a 200 campos de futebol. Dezenas de edifícios, Centro de Conferências, salões para receções, uma tenda real, usada para grandes eventos, jardins, fontes, escritórios do governo, heliporto, entre muitos outros edifícios. A mesquita não poderia faltar e uma ambulância está sempre em permanência no espaço, para serviço exclusivo da família real. Fotografar é proibido, e até um diligente militar que circulava na sua viatura privada, vendo-nos com máquinas ao pescoço, parou e veio informar-nos que não poderíamos fotografar o palácio, mas sempre de uma forma muito simpática.

Finalmente, depois destes pequenos desvios, chegámos à Casa de Sadu, presentemente um museu e centro cultural, criado em 1980 para preservar uma tradição antiga chamada “Al Sadu”, uma técnica de tecelagem beduína, de lã de cabra. Com esse tecido, de padrões geométricos e cores fortes, faziam-se “paredes” para as tendas do deserto, tapetes, acessórios para camelos, entre muitas outras situações. Servia também para enviar mensagens entre famílias distintas. Por exemplo, se uma família tivesse uma filha em idade de casar e soubesse de um pretende numa outra família, enviava um Sadu com padrões de brincos, e era assim que se faziam os pedidos de casamento. Os utensílios usados para a tecelagem, são muito parecidos com os nossos, o que achei bastante curioso. A visita é gratuita, com oferta de café árabe e tâmara, e acompanhada por uma guia, muito simpática, que tem o sonho de ir a Portugal para conhecer as suas praias. O local onde o museu está instalado é, também ele, cheio de história. A casa foi construída em 1936, sendo uma das primeiras no país a ser construída com pedra e cimento. Mandada erguer por um rico comerciante, Youssef Al Marzouk, e não existindo ainda no país, o conhecimento de fazer e trabalhar o cimento, o comerciante importou tudo da India, inclusive trabalhadores. Terá sido o processo mais simples, uma vez que à época o Kuwait era um protetorado britânico. Uma visita muito interessante, onde podemos perceber a ligação entre o Kuwait moderno e as suas raízes nómadas.

O passeio continuou pela Corniche (para nós a estrada marginal), com muitos encontros com simpáticos gatinhos. Nos relvados, centenas de filipinas faziam grandes piqueniques e concursos de karaoke, sempre muito divertidas. Algumas ensaiavam coreografias em grupo. A comunidade filipina é uma das maiores comunidades estrangeiras no Kuwait. A maioria trabalha em serviços doméstico, hotelaria e restauração.

Um indiano, de passagem, diz-me que estamos muito perto da Igreja Católica, algo que desconhecia existir no país. Fizemos esse pequeno desvio, mas, infelizmente, a igreja já estava encerrada à nossa chegada. No seu espaço exterior, dezenas de filipinas, que devem ter ido à missa, mantinham-se por ali, em divertidas e animadas conversas.

Continuámos então para o Centro Cultural Sheikh Jaber Al-Ahmad, que tem uns edifícios de arquitetura moderna muito interessantes. Infelizmente não disponíveis para visitar. Alberga teatros, salas de concertos, cinema e espaços culturais. O espaço é rodeado por um parque muito interessante, que nos pareceu ser o ponto de encontro da sociedade kuwaitiana. Como que num desfile de moda, homens e mulheres ocupavam os vários espaços de restauração, transpirando elegância, charme e luxo, quer com trajes tradicionais, quer num espírito mais ocidental e casual, mas sempre de uma elegância tremenda.

Paragem num souk para almoço. As filipinas continuavam a reinar, todas elas carregadas de sacos com compras. Terá sido dia de receberem o ordenado?

De volta à visita da cidade, apanhámos autocarro para uma zona da cidade chamada de Shark, onde, para além de arranha-céus de várias formas, pretendíamos visitar o parque Al-Shaheed. Sem saber muito bem o que encontrar, numa visita meramente exploratória, a zona acabou por ser uma grande surpresa. A viagem até lá, num autocarro de 2 andares, foi tipo “Grand Prix Mumbai”. O motorista, que nos pareceu de origem indiana, falava ao telefone, conduzia, apitava, recebia dinheiro, fazia trocos, quase tudo em simultâneo, e sempre num gás incrível! Mas sempre muito simpático e prestável.

O Parque Al-Shaheed, é enorme, e foi construído para homenagear os mártires do Kuwait, assim como albergar um monumento em sua memória. Já no parque, visitámos dois museus, o do Habitat e o Memorial.

O primeiro foi criado para ensinar as pessoas a proteger o ambiente e compreender os ecossistemas do país. É um museu bastante tecnológico e interativo, com grandes projeções panorâmicas e sons ambientes de diversos habitats. Uma parte importante do museu está escondida no solo, criando uma perfeita integração com a paisagem.

O segundo, o Museu Memorial, é um moderno e interativo espaço, muito virado para história recente do país, especialmente a invasão do país pelo Iraque em 1990.

Também na zona se encontra o memorial de homenagem aos mártires da guerra de 1990-91, militares e civis. Feito de blocos de vidro, um por cada mártir. O vidro foi utilizado porque representa pureza e memória e transmite uma ideia de fragilidade da vida, respeitando-se assim os mortos.

Por fim, destaque para a zona de bandeiras, onde se homenageia todos os países da coligação militar que se uniu para combater o Saddam. Portugal está representado!

Mais umas fotos noturnas e damos o dia por encerrado, com mais 17 quilómetros no conta quilómetros das pernas. Amanhã é dia de explorar outra zona da cidade, e a noite, a última, reservadíssima para o grande souk.

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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