
Jogar na rua, eis um tema polémico.
De um lado, a ideia de brincar na rua evoca um passado idealizado e feliz, de ruas mais confiáveis, lazer pouco estruturado e pais menos protetores. A exatidão destas recordações pode ser bastante questionável, ainda que o impacto crescente do trânsito automóvel se mostre inegável, e há toda uma nuance de classe e género a ter em conta antes de se discutir a segurança e liberdade relativas desses tempos, mas nada disto arrisca quebrar o ânimo dos que recordam, saudosos, a infância passada na rua. Este apreço estende-se, frequentemente, à outra extremidade da pirâmide etária, e aos reformados que se juntam para cartas ou dominó.
Por outro lado, diferentes formas de ocupação lúdica do espaço público são encaradas com desconfiança. Em vez de se reparar na felicidade, nota-se que, hoje, ao contrário do que acontecia no passado, (que é recordado como inofensivo, talvez por já ter sucedido), os skates podem magoar e que uma bola, em vez de golos eternamente memoráveis, pode representar um quase-vidro-em-cacos. Ou, ainda, que os jovens fazem barulho quando estão juntos e que o chão guarda a sujidade deixada pela festa. As celebrações foram empurradas do espaço público para espaços privados e até os jogos passaram a ser classificados como desportos e enclausurados em locais próprios, acessíveis apenas se a Pessoa pagar, aceitar as regras, assinar consentimentos expressos, consentimentos tácitos e, ainda, claro, consentimentos inequívocos, porque a cruz no quadrado do formulário já não chega e há que por a cruz sobre algo maior: a Liberdade.

Simultaneamente, outros corpos que habitam a cidade são vistos como ameaça, em nome de uma falsa insegurança, que disfarça mal o preconceito e a discriminação subjacentes. Em Odivelas, e bem recentemente, encontramos exemplos de ataques à população racializada e/ou imigrante, acusando-a de perturbar os jardins e os passeios com os seus jogos de rua. A acusação parte dos transeuntes do êxodo temporal, escondidos num esperançoso passado que toma para si a possibilidade de um qualquer outro presente e, até, futuro: “isto já não é como no meu tempo”. Contudo, o que Odivelas tem procurado responder é simples: “o teu tempo é agora e depende do que fizeres dele”. Não conseguem ouvir Odivelas a falar-vos?
Nós conseguimos. Aliás, ouvimos Odivelas a dizer-nos várias coisas importantes. Urge apenas que queiramos realmente ouvi-la e fazer dela o que é e não tem conseguido ser: Odivelas é o cadinho sobre o qual se constrói a riqueza da interculturalidade e onde o espaço público pode ser um local de encontro, convívio e, acima disso, de construção partilhada do futuro.
Persistem, claro, como sempre e para sempre, bolsas de rebelião: adolescentes que jogam à bola com pacotes de sumo em campos marcados pelos casacos, jovens que reclamam o flow da cidade em circuitos de parkour e outros que constroem campos de críquete no jardim público, ou grupos de mães e pais que, de uma forma inesperada, se organizam para vigiar coletivamente as brincadeiras dos filhos. Pequenas centelhas, aqui e ali, sempre marginalizadas por um poder político que não acolhe a liberdade de ação e, mais grave, não potencia o espaço público que, leia-se, é público!
Impõe-se, então, perguntar: como podemos, todos e todas, contribuir para esta resistência comunitária que luta pela felicidade de retomar as ruas com os nossos jogos e brincadeiras? Que futuro podemos fazer, entre experiências do passado e iniciativas do presente, entre estudos urbanísticos e risos dos urbanitas que ainda vamos a tempo de vir a ser?
Em primeiro lugar, aquele que uma cidade feliz, onde se joga na rua, é uma cidade à escala do ser humano, não do automóvel. É aliás, uma cidade que se protege de veículos, preservando os passeios. Urge planear o espaço para a brincadeira: construir praças, jardins e passeios que acomodem as pessoas com segurança e conforto, que ofereçam refúgios climáticos e que tornem a vida lúdica na rua não só possível, mas segura e confortável. Isto implica pensar a cidade como um todo, desde o chão, com pavimento em boas condições e rampas que promovam a acessibilidade, até ao teto, com árvores de sombra e iluminação adequada.
Em seguida, aquele que é essencial garantir que o inevitável uso concorrencial do espaço seja gerido cuidadosamente, assegurando a convivência feliz e harmoniosa, o direito de passagem e o direito de permanência. Isto passa, muitas vezes, por um equilíbrio entre espaços desenhados para usos específicos e espaços versáteis. O espaço do jogo pode ser o baldio, o passeio, o centro da rotunda ou o jardim, mas também pode ser o campo de ténis público, o parque canino, as mesas de quatro lugares para jogar à sueca ou qualquer outra intervenção específica que organize a coexistência.
Finalmente, um futuro em que a planificação urbana, e terminamos com esta ideia, pode e deve conviver com a apropriação social e autónoma do espaço. Até porque a negociação social faz parte da vida urbana e as Pessoas, em liberdade, encontram sempre soluções. Mais ainda: as pessoas são felizes, quando, livres, se sentem úteis e propositivas na construção de um espaço público que, não sendo exclusivo a ninguém, só pode, mesmo, ser de todos e todas.
Nas cidades felizes, os adultos, tal como as crianças, têm direito a brincar, a pensar o espaço, a improvisar e, para além de tudo, a ser no próprio espaço que também é seu. O direito a brincar na rua é o direito à própria (feli)cidade porque uma cidade que acolhe o jogo é uma cidade de pessoas, por pessoas, para pessoas. É a nossa cidade!
Inês Pereira, socióloga, professora universitária e criadora de jogos
Gonçalo Soares de Jesus, advogado, mestre em Filosofia e fazedor de humanismos em vias de extinção
Imagem gerada pela IA Copilot da Microsoft









