Diário de Bordo | Arábia Saudita – dia 3 (O regresso)







Dia de despedidas do Kuwait, um país onde fomos sem muitas expectativas e que verdadeiramente nos surpreendeu, principalmente pela hospitalidade com que fomos recebidos. Ainda hoje, na chegada à paragem dos autocarros, dois “fiscais” controlavam, na rua, a partida dos autocarros, sentados em duas velhas cadeiras de escritório, sendo que à nossa chegada, logo um deles deu de imediato o lugar à Ana, e o outro começou a fazer telefonemas para saber onde andava um autocarro 13, que nos levaria até ao aeroporto. Nem 2 minutos depois, já tínhamos transporte exclusivo para nos levar. A vontade de ajudar e agradar a quem é de fora é notória.

Voo normalíssimo e aterragem em Dammam. Formalidades de entrada muito rápidas nesta cidade. Dammam é uma das principais cidades da Arábia Saudita. Tem uma importância económica e estratégica muito importante, principalmente por estar perto de um dos maiores campos petrolíferos do mundo, e por ter um dos principais portos do país, no Golfo Pérsico, o King Abdulaziz Port. Fica mesmo junto a outra cidade, Al Khobar, criando uma enorme zona urbana contínua.

Check-in no hotel, em Al Khobar, onde aproveitámos para questionar na receção, a possibilidade de ir ao Bahrein, para visitar o antigo forte português, Património Mundial da UNESCO. O rececionista muito rapidamente fez uns contactos e tínhamos, para o dia seguinte, viatura e motorista. Todavia, contrariamente à informação que tínhamos, não era fácil obter o visto de entrada no país à chegada à fronteira. Teríamos de o fazer online, mas pode demorar entre uma a duas semanas a termos resposta, pelo que o Bahrein ficará para outra viagem.

Assim sendo, colocamos em marcha o plano B para o dia seguinte. Hoje, mantivemos o plano de visitar o “King Abdulaziz Center for World Culture”, também conhecido como Ithra. É simplesmente uma obra maravilhosa de arquitetura! Tem um design completamente futurista, com formas orgânicas que lembram rochas ou estruturas naturais. Inaugurado em 2018, é um dos centros culturais mais impressionantes do Médio Oriente. Tem uma biblioteca com centenas de milhares de livros, um museu com variadíssimas exposições de arte, história e ciência, teatro e cinema, e um centro de inovação com espaços educativos, criando-se assim um verdadeiro “hub” de conhecimento e cultura. O ambiente do espaço tem uma harmonia soberba! Uma das exposições que vimos, estava excecional. Era de fotografia, com o tema caligrafia e artesãos. Numa outra área do espaço, ficámos impressionados. Entrámos numa Playstation gigante, onde as próprias pessoas são as personagens do jogo, e são os seus movimentos, que fazem o jogo avançar. Ao fundo, mas sem acesso, estava uma mesa de matraquilhos enorme. Eu a pensar organizar já um amigável Portugal-Arábia Saudita, mas não foi possível.

Hoje, o dia, em tempos de exploração, foi curto, mas o de amanhã promete mais umas longas caminhadas, na descoberta de duas zonas da cidade de Al Khobar. Aproveitámos para comprar uns miminhos para colegas e família, descobrir o sítio do pequeno-almoço para o dia seguinte, o que está feito, bastando termos visto falafel com ovo.

Arábia Saudita dia 4

Gorado o plano Bahrein, passagem ao plano B. Mas primeiro, o fundamental pequeno-almoço de falafel com ovo, que estava no ponto! Fizemos já a reserva para o dia seguinte, antes da partida para Riade.

A primeira visita do dia foi o bairro de arte de rua. Fica muito perto da corniche, e tem imensas ruas grafitadas por artistas locais. Vê-se que os murais não têm tido muita manutenção, mas ainda é um local muito interessante para se visitar, para os apaixonados por arte de rua, como é o nosso caso. Em termos fotográficos é também muito interessante, perdermo-nos por estas ruas. Por todo o bairro vamos encontrando gatos meigos, o que nos leva a ficar mais tempo do que o previsto. Teremos de dar corda aos sapatos, para cumprir a programação de hoje.

Finalmente passámos para a corniche, que, apesar de longa, pretendemos fazer toda a pé. Sempre ao longo do mar, é uma zona que expressa a modernidade de forma muito clara, pelo modo como o espaço urbano foi pensado, em linhas limpas e amplas, com conforto e mobilidade. O espaço está sempre muito bem cuidado, numa preocupação muito harmoniosa, e os cafés e restaurantes que vamos encontrando, têm uma arquitetura moderna muito interessante.

Mas os contratempos começaram a surgir. N

ão contávamos com as inúmeras obras que ainda se fazem na corniche. Torres de habitação, novos jardins, novos lagos, novas zonas comerciais, em mais uma obra milionária, como muitas outras que decorrem no país. Esta situação levou a alterações no traçado do nosso passeio, que nos fez perder bastante tempo. Tivemos de fazer vários desvios para ruas interiores, alguns bem longos, fizeram-nos carregar as pernas de quilómetros desnecessários. Por sorte, a temperatura está fantástica para caminhar. Podemos estar de t-shirt, sendo que os locais usam casacos de penas, cachecóis, gorros, alguns até com proteções para as orelhas…! Aqui é inverno e para eles 20 graus é frio. Nos tapumes, faixas gigantes dão as boas-vindas ao Mundial de Futebol de 2034, que aqui se vai realizar.

Nas zonas da corniche com as obras já concluídas, a elegância e a modernidade imperam, com belos edifícios e espaços verdes muito bem cuidados.

Com a chegada do fim do dia, começa o “êxodo” da população do interior da cidade para a zona junto à costa, para os habituais piqueniques, alguns muito frugais, mas outros com imenso requinte. Alguns apenas um tapete, um livro e um termo de chá ou café, sendo que outros trazem palamenta completa, com largos tapetes, mesa, cadeiras, muita comida e os indispensáveis termos com chá e café. Até vimos um grupo que trouxe um arranjo floral para colocar em cima da mesa! Onde há mar, existe esta cultura de convívio na marginal, entre famílias ou amigos, nos finais de tarde e princípio da noite, numa salutar tradição e muito diferente daquilo a que estamos habituados na nossa cultura. Os grupos que vemos têm particularidades. Ou são um grupo de uma família, ou grupos só de homens, ou grupos só de mulheres. Na zona há também muitos parques, onde os miúdos brincam livremente. Os mais desportistas, aproveitam a corniche para andar de bicicleta, caminhadas em passo apressado ou fazer jogging. Os mais tecnológicos percorrem o “calçadão” em trotinetes elétricas todas “quitadas”, curtindo um som nos grandes headphones que levam na cabeça.

Nós optámos a beleza do local para desfrutar de um belo pôr-do-sol, em sossego, acompanhados por um chá quentinho, que ao fim do dia, a temperatura baixa, e o vento offshore, refresca ainda mais o dia. Sempre no horizonte, a icónica torre de água a cidade, em completo restauro e para já sem visitas.

Sendo nós os exóticos, algumas pessoas abordam-nos e perguntam de onde somos. Sempre que se fala de Portugal, o sorriso alarga-se e o inevitável Cristiano vem à baila. A Ana esteve alguns minutos numa conversa muito interessante, com uma senhora que não falava uma palavra de inglês, sendo que a Ana não fala uma palavra de árabe. Mas falaram muito! Até fizeram um vídeo e uma pequena sessão fotográfica, a pedido da senhora! Eu ia fazendo uma sessão fotográfica a um local, que amavelmente me veio pedir se lhe tirava umas fotos com o telefone dele, junto a umas fontes.

Já de noite, alcançámos, por fim, o final da corniche! Fechámos o conta-quilómetros com 16 quilómetros e o “gatómetro” com… talvez… 500! São imensos os gatos nesta zona e quase todos muito simpáticos e muito acarinhados por todos.

Amanhã é dia de partir para Riade, último destino da nossa viagem, e onde vamos ter oportunidade de passar um dia no deserto. Mais um ano sem sorte na data do Dakar. O ano passado começou no Golfo Pérsico e em data mais avançada, e nós no Mar Vermelho! Este ano começa mais cedo, mas do lado do Mar Vermelho, sendo que estamos no Golfo Pérsico! Ainda não foi desta que consegui fotografar uma etapa de deserto deste Rally Raid e apanhar uns belos “bonecos” do catari Nasser Al-Attiya, em plena ação.

Hoje é noite de fim de ano, que aqui não acontece. Não é data que se celebre. O que até nem é mau. Não temos de levar com aquelas reportagens, já muito “gastas” e enfadonhas, das contagens decrescentes, ditas de uma forma como se o mundo fosse acabar daqui a uns segundos, nem das imagens dos foliões com chapéuzinhos e cones prateados na cabeça, soprando sofregamente uma “língua-da-sogra”, num circular comboiozinho, ao som do “bilú bilú bilú…bilú teteia!”. Aqui a rede telefónica também não fica bloqueada imediatamente a seguir às doze badaladas, como em Portugal, onde à meia-noite todos querem ligar a várias pessoas, vá-se lá saber por quê! Também não houve fogo de artifício, mas em Portugal haverá certamente já a “capital do fogo de artifício no fim de ano”, não fossemos nós o país das “capitais”!

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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