Opinião: Quantos nomes (ar)riscam a nossa cidade?







Quando pertencemos a um local, seja ele qual for, é inevitável vermo-nos refletidos no que nos rodeia. Sempre que vamos à janela, vemos ruas, pessoas, carros, prédios, mas, na verdade, sempre que o fazemos há uma pergunta a que nunca respondemos: que marca deixamos, afinal, no espaço que habitamos? 

Já longe da janela, mas sempre com ela na memória do retorno em horas avançadas do dia, saímos de casa para o trabalho, passamos eternidades em transportes imprevisíveis em horário e transbordos sobrelotados, jornadas em profissões exigentes e longas no tempo da sua duração e estamos mais a trabalhar do que com os nossos. Quer isto dizer que o Odivelense, na fórmula suburbana da sua relação com o espaço e o trabalho, continua distante do que ergue no íntimo mais profundo de si: o amor, seja próprio ou por outros. Esta é uma das muitas narrativas de quem habita o município de Odivelas, ou melhor, de quem dorme cá, mas entrega os sonhos à Lisboa que pouco lhe devolve em troca.

Talvez pensando nisto também, na coluna de opinião do Diário de Odivelas, aos 22 de maio, a Inês Pereira defendeu o “direito à (Feli)Cidade”, argumentando, em síntese, que faltam espaços para o jogo, para a brincadeira e para o ócio que, por estranho que possa parecer, é condição sine qua non da boa produtividade. Com esse texto, agora, fomos arremetidos a pensar nas muitas das nossas crianças Livres que (ainda!) marcam o seu espaço pelas gargalhadas, pelos sons, pelos jogos e por muitas outras formas. Assim, uma questão: será que tudo isto vai terminando à medida que vamos crescendo? Será que a criatividade nos vai sendo tomada pelo cansaço que, como dissemos acima, marca a rotina do suburbano que o Odivelense ainda não conseguiu deixar de ser?

Por tudo isto, questionamo-nos se temos realmente criado espaços para falar, existir em público e, claro, deixar a marca que faz do espaço que habitamos um local que nos dá conforto, liberdade e algo cada vez mais raro: alegria.

Refletindo agora sobre uma constante no nosso espaço público, o graffiti e os tags, é inegável: olhamos em volta e é difícil não nos confrontarmos com uma realidade que entra pelos olhos e que nos faz sentir muitas emoções diversas. Estas expressões, por diferentes pessoas, podem ser vistas como arte, vandalismo ou sinal de desordem e isso tem impacto na sensação de segurança e de identidade com o espaço envolvente. Enquanto o grafitti / street art é mais acolhido como expressão de arte, os tags (assinatura ou marca) tendem a marcar o território. Neste sentido, estudos sobre urbanismo apontam, até, que más condições dos edifícios ou falta de manutenção e espaços mais estreitos, tendem a favorecer o aparecimento destas expressões nas paredes.

Questionamo-nos, novamente, se, em especial em Odivelas, temos criado locais onde a aproximação do cidadão ao espaço, neste caso pensado a partir do tag, se tem verificado.

Veja-se como, nas ruas de Odivelas, apareceram vários tags e mensagens com um nome e dizendo “Rest in peace” (descansa em paz). Não conhecendo as histórias em causa, imaginamos que a dor, a revolta e tudo o resto encontraram nas paredes dos prédios envolventes a tela para que se expressassem emoções que o espaço, que devia ser de todos, não recebe: risca-se uma parede para mostrar o que todos, antes, rejeitaram e excluíram.

Naturalmente, a escrita, aqui, poderá não ter um valor estético convencional, mas leva-nos à reflexão do que poderemos fazer para acolher quem acha que apenas é escutado através de uma trincha e mãos sujas de tinta: as paredes já não têm apenas ouvidos, mas bocas que gritam o estado emocional de quem já desistiu de falar – aqueles que, infelizmente, se deixou de querer ouvir.

Sobre os tags que agora referimos, existem abordagens com maior policiamento e repressão que não diminuíram estas práticas. Mais, a intervenção para diminuir o aparecimento destas expressões podem, inclusivamente, passar pela remoção rápida, mapeamento automatizado para priorizar a limpeza, alteração de diretrizes de desenho urbano e outras tentativas. No entanto, esta dimensão não olha para a realidade mais ampla por detrás do tag ou do graffiti: que história querem estes “riscos” contar? Podem ser apontadas sugestões como aumentar a participação comunitária, recorrer ao uso de muros legais e tudo o que se possa vir a desenvolver, ouvindo aqueles que ainda marcam a cidade, mas a verdade é que há uma voz escrita nas nossas ruas que, se escutada, poderá aproximarmo-nos do espaço que é de todos.

E, assim, a questão que, por agora, resta, apesar de graffiti e tags serem uma expressão mais comum na adolescência e juventude, em que o espaço público acaba por ser visto como o lugar de fazer ouvir a sua voz, é de que forma podem, os Odivelenses, marcar o seu espaço e, desse modo, pertencer à cidade que é sua, mesmo que nem sempre pareça.

Claro que as respostas podem ser várias, a pender mais para a participação local em movimentos associativos, políticos, desportivos e sociais, ou mais para uma participação “desorganizada” de pendor pontualmente cooperativo, mas a pergunta, a que resta mesmo, não haja dúvidas, é justamente essa: como é que os Odivelenses podem, de uma vez por todas, sentir-se cada vez mais confortáveis na sua cidade, pertencentes àquilo que é o seu espaço e autores de um futuro que já lhes cresce nas mãos?

Tiago Casaleiro, enfermeiro de saúde mental, psicoterapeuta e professor de enfermagem

Gonçalo Soares de Jesus, advogado, mestre em Filosofia e fazedor de humanismos em vias de extinção

 

 

 

  • Diário de Odivelas - Redação

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